14.8.12

vela latina, porque um porto seguro não precisa ser necessariamente cool

[©telmo miller]


Há quantos anos não vai ao Vela Latina

Fiz-me essa mesma pergunta semanas atrás, quando, depois de um longo interregno, entrei no restaurante (não confundir com o snack-bar, que fica também por ali, mas que é um outro conceito).

[O carpaccio (©telmo miller)]

A resposta varia de pessoa para pessoa, mas, de uma forma geral, tem dado que pensar a Guiomar e a Salvador Machaz. Ligada à fundação dos hotéis Tivoli, a família Machaz não está neste negócio há dois dias. Muito pelo contrário; só no Vela Latina, espaço de referência na doca de Belém, com uma localização — a Torre de Belém está a dois e passos e o Tejo, já a fazer-se ao mar, ao alcance do olhar — e uma área que tomara muitos, vão já a caminho das bodas de prata.

[A sala interior, mas com vista (©telmo miller)]

Mas o tempo, nesta como noutras coisas, mesmo quando não é implacável, é sabido, raramente perdoa. Nos idos anos 1990, o Vela Latina ditava modas e não havia guia da boa vida que não apontasse as suas mesas entre as mais influentes da capital. Hoje, entre as suas paredes — cegas, surdas e mudas — continua-se a discutir assuntos de Estado, mas o Vela Latina anda arredado. E olhos que não veem, coração que não sente.

[©telmo miller]

Guiomar e Salvador, primos, receberam o testemunho dos pais e cabe-lhes agora, em tempo de vacas magras (e do famigerado IVA a 23%, último golpe de misericórdia para muitos restaurantes do país), dar continuidade ao legado familiar. O estilo assumidamente náutico da decoração deixou-os divididos – ainda deixa – mas, aos poucos e feitas já algumas pequenas intervenções estéticas (a mais visível delas está na varanda coberta, mais fresca e leve, mas o jardim nas traseiras também deve ganhar em breve melhor uso), estão a chegar à conclusão de que o Vela Latina pode (e deve) ganhar nova clientela sem perder a essência, a discrição e a boa cozinha mediterrânica (onde se inclui um pastel de nata com tradição nas sobremesas) que sempre o caraterizaram e que lhe permitiu manter, independente a modas, um séquito de fiéis onde se incluem inúmeros políticos e empresários da nossa praça. 

[A varanda coberta (©telmo miller)]

São sobretudo estes últimos que dão o tom aos almoços, e que não perdem de vista especialidades da casa como o clássico arroz de coentros com lagosta executado pelo chef Benjamin Vilaça (o peixe e marisco frescos são ponto de honra); aos jantares, há espaço de manobra para ir um pouco além e arriscar mais, embora – crise oblige – os grupos sejam já uma alternativa.

[©telmo miller]

Primeiro fui ao almoço e uns dias depois, com companhia, voltei para jantar. Num caso como noutro, os pratos experimentados, bem executados e bem ao estilo de comfort food (que é como quem diz, técnica de restaurante, mas com sabor a comida de casa), não desiludiram, mas gostei achei a casa mais composta de dia. É a noite — os seus atuais donos sabem-no bem — que representa o maior desafio.

Uma coisa é certa, por algumas voltas que venha a dar, o Vela Latina quer que os lisboetas (e não só) o voltem a encontrar onde sempre esteve. Assim uma espécie de porto seguro. 

Doca do Bom Sucesso, Belém, tel. 213 017 118

8.8.12

e o verão já vai a mais de meio, mas o novo menu de degustação do 100 maneiras ainda cheira (e sabe) a novo

[Ljubomir Stanisic e o novo menu de degustação, que também se come à mão (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Entre as gravações televisivas que o obrigam a viagens constantes por Portugal continental e insular — já falei aqui do livro, "Papa-Quilómetros", na origem do programa com o mesmo nome que passa no canal a cabo 24 Kitchen e que ganhou, não faz assim tanto tempo, uma versão para a Sérvia, país de origem do chef —, as noites mal dormidas por conta do seu mais novo rebento — Ljubo foi pai, pela segunda vez, e, consta, tem aproveitado as vigílias noturnas com o filho para o iniciar olfativamente no mundo da cozinha... — e as demandas constantes dos seus três restaurantes (fora as solicitações, sempre mais do que muitas, da imprensa), Ljubomir Stanisic encontrou ainda tempo para se sentar bem à minha frente, uma noite destas. 

Sentado à mesa, ele mesmo fez questão de apresentar o mais novo menu de degustação do 100 Maneiras (45 euros por pessoa, mas 35 para quem quiser fazer a maridagem de cada prato com os vinhos).

[É assim o 100 Maneiras, o restaurante (foto de divulgação)]

Não vou apresentar o Ljubo. Já escrevi várias vezes sobre ele — ou a propósito dele, como aqui —, e por se ter tornado uma figura mediática, sobretudo depois da participação como júri no MasterChef, é sobejamente conhecido do grande público. Direi apenas que, mesmo cansado, não perde o ar de miúdo traquina (apesar de trintão) e que, mais conhecedor das coisas de Portugal que muitos portugueses aqui nascidos e criados, ele, à moda do Norte, faz do palavrão não uma agressão mas um modo livre de expressão.

[O ambiente e os detalhes da sala (foto de divulgação)]

Também não vou falar do 100 Maneiras, ao Bairro Alto (e não muito longe do irmão do meio, o Bistro), o primeiro da série, que se mantém, no espaço acanhado mais intimista, ideal para quem quer degustar ao jantar, e só ao jantar, a cozinha mais autoral de Ljubo.

[O pão do couvert em saca de sarapilheira (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Na verdade, e como ele mesmo confessa, Ljubo já pouco vai para a cozinha. Daí a importância de um braço direito como, no caso do restaurante 100 Maneiras, o seu chef-executivo João Simões (meu quase homónimo que passou, entre outros, pelo extinto Unique Chiado). Mas, o seu toque está lá e não perde nada de vista — durante a noite, por várias vezes, chamou à atenção o pessoal que servia às mesas, alertando para um prato colocado ao contrário e para outros pequenos detalhes que escapariam a olhos menos treinados.

[Sempre presente... (foto de divulgação)]

Mas vamos ao novo menu de degustação. Por estarmos (ainda) no verão, este apresenta-se, necessariamente, mais leve — Ljubo admite que, se pudesse, incluiria apenas peixe e deixaria de fora a carne —, mas não abre mão de certos "clássicos" da casa que ninguém quer ver de fora.

[... o estendal de bacalhau (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

É o caso do Estendal do Bairro Português, uma ideia de truz que Ljubo teve há anos e que, parece, não cansa quem ali vai. No fundo, explicando aos que não provaram, são pequenos chips de bacalhau desidratado, presos por minimolas como se de roupa se tratasse. Por enquanto, o estendal ainda vem nas armação de inox, mas uma parceria com a Vista Alegre deve trazer, não tarda muito, uma outra versão em porcelana (assim acertem com o molde...).

[A sardinha (foto de divulgação)]

Ainda nos entreténs de boca ou palato, segue-se uma sardinha marinada com guacamole em espetada de pão alentejano e pimento padrón.

[Salmão em carpaccio (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Bem como um carpaccio de salmão com ervas, sorbet de lima, lascas de espargos, funcho e aneto em pickle — que Ljubo ordena que se coma com as mãos.

[A vieira, como uma jóia (foto de divulgação)]

Nas entradas, primeiro vem o que ele diz ser uma tentativa de desconstruir um prato oriental. Traduzido? Uma gorda vieira, escondida num prato-sarcófago com ares de porta-jóias, corada com salicórnia (é ela que dá, no caldo onde também vai gengibre e soja, um toque mais salgado), cogumelos e caldo asiático. 

[O ravioli de pato (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

E entra o ravioli de pato, cogumelos e amendoim em massa de arroz com fricassé de espargos e salsa. Aqui, como no resto servido até então, leveza e uma aposta na sutileza, preferindo notas perfumadas a contrastes muito marcados.

[Bacalhau à brás. mas não como conhecemos (foto de divulgação)]

Nos peixes, Ljubo brinca com o tradicional bacalhau à brás. Como? Apresenta um naco de bacalhau escalfado com brás de batata, couve e coentros (e tomate, que introduz uma nota mais ácida). 

[Limpa-me o palato, por favor (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Nem carne nem peixe: o granizado de limão confitado com citronella (parente da nossa erva cidreira) gengibre e hortelã a servir de intermezzo. Entre o peixe e a carne.

[O leitão, macio por dentro, estaladiço por fora (foto de divulgação)]

Chega-me então um leitão cozinhado a baixa temperatura com maçã Granny Smith caramelizada e nabo. É uma tendência, decididamente. Nos últimos meses tenho comido, não só em Portugal, pratos em que sobretudo a barriga do porco (neste caso é leitão) é cozinhada por horas a fio, para se apresentar depois muito macia por dentro, com uma nota fumada, e com a pele estaladiça por fora.

[Fruta, mas não só (foto de divulgação)]

Para encerrar o repasto que já ia longo, duas sobremesas. Fruta com sabayon de amêndoa e crumble e cacau e, a que me ficou no goto (porque se trata de uma coisa aparentemente simples, mas que resulta em cheio): espuma de queijo com sorbet de goiaba e nougat de medronho, numa releitura muito feliz do "clássico" brasileiro Romeu e Julieta (queijo e goiabada).

["Romeu e Julieta" segundo Ljubo (foto de divulgação)]

Numa época de crise, em que muitos restaurantes (comerciais, mas também de alta gastronomia, perecem), acho que entendo cada vez melhor o sucesso de Ljubomir. Sabe promover-se, aliar-se aos parceiros certos e tem-se mostrado certeiro em juntar ao prazer convivial de estar à mesa uma cozinha autoral, mas com sabores, texturas e harmonizações que são fáceis de assimilar pela maioria dos comensais. 

[Yummy! (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Parece simples de fazer, mas não é.

Rua do Teixeira, 35, tel. 910 307 575, todos os dias, entre as 19.30 e as 02.00

6.8.12

a esperança é a última a morrer na sé

[A esplanada do Esperança da Sé (foto de divulgação)]

O tempo de pausa no blog (neste e nos outros que levam a "marca" @ddressbook) não foi premeditada, mas, entre vários afazeres (e para quem não sabe posso adiantar que, desde o número de maio, estou também a fazer a coordenação editorial da revista Volta ao Mundo), acabei por me ausentar mais do que o previsto ou desejado.

Vou-me redimir, prometo, nos próximos dias :)

Em fila de espera, o Esperança da Sé. Já deram por ele? Eu, mea culpa, só lá fui em junho.

Devo confessar que graças ao meu maravilhoso sentido de orientação, levei mais tempo a encontrá-lo do que deveria. Mas o problema não está na sua localização. É mesmo um caso grave, e sem fé, de desorientação.

À minha espera tinha uma amiga que, vira e mexe, torno cúmplice destas lambanças. E este é o meu primeiro conselho para quem ainda não foi ao Esperança da Sé: se puder, leve companhia. É o tipo de restaurante que se presta à partilha e à conversa.

Durante anos, o Esperança do Bairro Alto foi (suponho que ainda seja, mas há um bom tempo que só passo à porta) morada certa para quem queria um restaurante ao mesmo tempo cool e íntimo. A comida italiana cumpria e nos dias mais concorridos chegava a haver dois turnos de jantares para dar conta de tanta reserva. O ambiente "no escurinho do cinema" depressa tornou-se a sua marca registada, mas das vezes em que ali jantei, recordo-me, não me importaria nada que as luzes estivessem um ou dois tons acima (acho sempre complicado quando temos de andar à procura de um foco de luz para conseguir ler a ementa...).

[E a Sé logo ali, na rua em frente (foto de divulgação)]

Talvez por isso, uma das primeiras coisas que reparei ao entrar na Esperança-benjamim — e entrar é quase uma força de expressão, pois em dias de verão, o mais certo é estar de portadas abertas de par em par, atento à vida que corre em Alfama — foi na iluminação que, apesar de velada e com recurso também a velas, não é tão drástica. Melhor assim. Não se perde a carga romântica, e algo dramática, que vai bem com um edifício antigo recuperado e quase paredes-meias com a histórica Sé de Lisboa, mas também não temos de adivinhar a ementa.

Aberto há um ano, mais coisa menos coisa, este Esperança fez da esplanada, essa sim colada a um dos flancos da Sé, do outro lado do passeio, a principal novidade. Podendo escolher, eu talvez preferia onde fiquei, precisamente numa mesa à janela, com um pé dentro, mas com o olhar solto para me demorar, se preciso fosse, em cada pedra rebuscada da atração em frente. Isto porque a Sé, como monumento que é, encontra-se devidamente alumiada, mas sem nada de fantasmagórico. Pelo contrário, vista daquele ângulo, apresenta uma escala humana à dimensão do apelo castiço de Alfama.

[O Esperança da Sé está de pedra e cal num edifício antigo de Alfama (foto de divulgação)]

Assim é também o Esperança. Não chega a ser castiço, mas consegue ter uma atmosfera de bairro, sem ser bairrista, que não destoa.

E a comida, por que raio não estou a falar da comida? Afinal, não foi para isso que lá fomos?

A comida, como no do irmão mais velho, cumpre aquilo a que se propõe. Não se pode dizer que seja um restaurante barato para os padrões de Lisboa (conte com uma média de 25 euros por pessoa com vinho), mas é convivial, despretensioso e bem intencionado.

[Uma das criações mais recentes da casa: prato "três pastas" (foto de divulgação)]

Na ementa, há pizzas salgadas e doces, pastas, crepes, risottos e até uma parceria com os gelados Santini no capítulo das sobremesas. É uma cozinha italiana rápida, que no lugar dos velhos clássicos se permite já um toque de modernidade, apostando em combinações fáceis de degustar e de caírem no goto.

[O risotto nero, sucesso da casa (foto de divulgação)]

É o caso da Pizza Gourmet Fichi, que doseia a doçura dos figos com uma base de queijo de cabra e presunto de Parma, ou do prato "três pastas, que permite degustar de uma assentada spaghetti al parmegiano com tartufo, linguini de vieiras e ainda linguini nero fresco e gamberi. Favorito de muito é o risotto nero, assim chamado porque tingindo com a tinta dos chocos, levando ainda tomate, limão e bacon.

Rua São João da praça, nº 103, 
Alfama, tel. 218 870 189, aberto de seg. a sex., das 19.30 às 00.00; aos sáb., dom. e feriados, das 13.00 às 16.00 e das 19.30 às 00.00. 

24.6.12

um menu, tintim por tintim, da nova carta de verão do pedro e o lobo

[Diogo Noronha de Andrade e Nuno Bergonse (foto de divulgação editada por jms)]

Em praticamente dois anos de casa aberta, o restaurante Pedro e o Lobo continua, volta e meia, a ser notícia e a embelezar as páginas de jornais e revistas. Deve ser bom sinal.

[©joão miguel simões, todos os direitos reservados]

Dias atrás, porém, vi uma das últimas produções fotográficas da dupla de chefs, o Nuno Bergonse e o Diogo Noronha de Andrade, e numa das fotos aparecia um deles — já não me lembro qual — a fazer o pino...

[©joão miguel simões, todos os direitos reservados]

Percebo o espírito da coisa e até concordo que combina com uma certa irreverência e ideia de "cozinha atrevida" que querem passar, mas, a verdade é que não são precisas piruetas ou cambalhotas para repararmos neles ou no trabalho que têm vindo a desenvolver.

[A focaccia e o pão de tomate, entre as opções no couvert (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


Sobre o restaurante e os chefs não me vou alongar muito mais, até porque já contei a história antes aquirecordo o essencial: dois jovens chefs de apenas 32 (Diogo) e 25 anos (Nuno), o que lhes dá ainda uma boa margem de progressão; cinco sócios (além dos chefs, José Maria Vieira da Silva, Luís Baptista e Patrícia Baptista); uma decoração nórdica-industrial com um toque rétro dos anos 1950; uma cozinha contemporânea, com influências portuguesa e mediterrânica.

[A abrir, o amuse-bouche (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Há uma semana apresentaram oficialmente a nova ementa de verão, com direito a uma versão especial do menu de degustação que passo a mostrar e a comentar, tintim por tintim, de seguida. Antes, adianto-me e digo já que, tirando uma certa insistência em puxar quase ao limite a dicotomia doce-salgado em certos pratos (uma tendência que já lhes vem de trás), gostei do que vi e provei — visualmente, o empratamento foi sempre muito equilibrado, com composições quase poéticas; pelo menos dois pratos (uma entrada e uma sobremesa) ficaram-me na memória, o que é um feito e tanto se levarmos em conta que, nos últimos tempos, só não perdi a conta a todas as degustações que fiz porque tenho registo das mesmas.

[O creme e a caracoleta assada (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

A abrir os trabalhos, um amuse-bouche, servido sobre ardósia, com ovas de pescada, chip e barriga de porco. A acompanhar um Cartuxa Espumante Bruto Rosé. Agradável, mas o que me arrebatou (e a quem partilhava a mesa comigo) foi um creme de alho e amêndoas, que levava ainda alfaces e rabanetes e... uma caracoleta assada. Bonito de ver e muito, muito saboroso de comer. A caracoleta vinha fora da concha, mas esta última não estava vazia... No interior, parte do creme, aveludado, e uma decisão a tomar: sorve-lo diretamente da fonte, como se faz com os caracóis, ou misturá-lo no prato. Interessante também a amêndoa torrada inteira, a introduzir uma nota de crocância.

[O pato com cenoura (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Ainda nas entradas, e mantendo o Cartuxa branco de 2009, um naco de pato com várias texturas: cenoura, requeijão e gengibre. Foi uma das tais composições em que o salgado e o doce foram levados quase ao limite. Eu não iria, talvez, tão longe, mas admito que seja uma questão de paladar.

[O atum, mas não só (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Voltamos a um Cartuxa Espumante Bruto, mas desta feita um Reserva de 2008. Boa escolha para acompanhar o atum patudo, apenas ligeiramente rosado comme il faut, com abacate, cayenne migada, vinagreta de anchovas e coentros e, o toque mais marcante, beterraba. Atentos ao regresso desta herbácea à alta gastronomia, depois de anos e anos votada ao ostracismo, os chefs apresentaram-na em duas consistências diferentes.

[O Redondo de novilho (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

O roxo haveria de dar novo ar da sua graça no próximo prato de carne. Confesso que estou um pouco cansado do recurso ao redondo de novilho, mas achei interessante a sua conjugação com chalotas, couve roxa, laranja, tutano e algas. Em conjunto deram um travo ácido, quase amargo, que cortou bem a carne mais gorda. Para beber, um Cartuxa tinto, Reserva de 2008.

[O Cremoso de sobremesa (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Depois de vários pratos, repito-me, a chegada da sobremesa pode revelar-se ingrata. Ela precisa ser realmente boa para vencer o nosso palato cansado e o estômago a pedir tréguas. Pois esta, eu tive de me controlar para não a devorar até ao fim. Para começar, um colírio para os olhos. Várias texturas, cremosas e crocantes, cortadas pelo cítrico do sorvete. Fixem este nome para pedirem uma igual: Cremoso negro, branco e natas, streuzel de amêndoas e chocolate, opalines e ginja.

[Petit fours de framboesa (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Por ela não abri mão do café a encerrar, mas já só tive olhos, e não mais barriga, para apreciar os petit fours servidos no final: línguas de gato de framboesa e macarons de pistache. Um dó de alma, eu sei.

[Os macarons de pistache (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Uma última achega para acrescentar que o Pedro e o Lobo serve almoços e jantares, sempre à la carte, mas com a opção de menu executivo (entre 18 e 22 euros com um copo de vinho incluído) nos primeiros e menu de degustação (36 euros sem bebidas) nos segundos.

Rua do Salitre, 169, tel. 211 933 719, de seg. a sex., almoços entre as 13.00 e as 15.00; jantares entre as 20.00 e as 23.00; encerra sáb., ao almoço, e domingo, todo o dia

22.6.12

domingo é dia de bitoque e batatas fritas no bairro alto hotel

[©joão miguel simões, todos os direitos reservados]

Numa altura em que se multiplicam os brunchs de fim de semana um pouco por toda a cidade, o Flores, restaurante do Bairro Alto Hotel, ao Chiado, chegou à conclusão de que essa sua proposta não estava a resultar como seria o desejado.

Mas não há tempo para lamúrias.

Sai o brunch e entra o bitoque.

A partir de agora, e sempre aos almoços de domingo (prolongados até às três da tarde para dar tempo às pessoas de aproveitaram a manhã), o bife com ovo estrelado a cavalo, muito molho e batatas fritas passa a ser o prato forte do Flores.

[©joão miguel simões, todos os direitos reservados]

E há coisa mais portuguesa do que um bom bitoque?

Foi precisamente isso que pensaram no Bairro Alto Hotel, tanto que o chef Vasco Lello foi incumbido de, sem inventar muito (afinal um bitoque é... um bitoque), dar um toque especial à receita popular.

O bitoque à Bairro Alto Hotel apresenta-se em duas opções: carne de acém (com mais gordura), a 16 euros, e do lombo, a 20 euros.

O preço inclui ainda uma dose de batatas fritas e outra de salada a acompanhar. Obrigatórios, ovo estrelado a cavalo e, claro, muito molho. Na versão de Lello não foi usado café, mas sim, entre outros ingredientes, louro e um pouco de limão no final para introduzir uma ligeira nota mais ácida.

Provei e achei saboroso. Veremos se vai conseguir atrair uma nova clientela ao hotel num dia de grande movimento na Baixa-Chiado. E, já agora, se terá trunfos suficientes para competir com o bife da cervejaria Trindade ou até mesmo com La Brasserie de l'Entrecôte, a dois passos — mostrei estas fotos a alguns amigos e o comentário geral foi: mas não é um bocado minimal de mais?!...

Bairro Alto Hotel | Praça Luís de Camões, 2, 213 408 252

31.5.12

fora de portas: reviver a pompa e circunstância de seteais a pretexto dos bons vinhos de colares

[Fachada do Tivoli Palácio de Seteais (foto de divulgação)]

As horas, os dias, as semanas, os meses, e até os anos, passam a correr e, quando damos por eles e por nós, já passou um bom tempo desde que estivemos pela última vez num lugar de que gostamos.

[A piscina (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

É o caso do Palácio de Seteais, na encosta da serra de Sintra, onde funciona desde há muito um hotel do grupo Tivoli que soube manter a sua aura palaciana e valorizar um tipo de arquitetura civil e residencial neoclássica típica do século XVIII que, não há volta a dar, pede requinte, serviço sem mácula e toda uma série de ornamentos — das pinturas e frescos às tapeçarias, passando pelo mobiliário de época, luminárias ou porcelanas — que lhe façam inteiramente justiça.

[Um dos salões nobres (foto de divulgação)]

Entre fevereiro de 2008 e fevereiro de 2009, o hotel-palácio esteve fechado para um restauro profundo que envolveu, entre outras, a Fundação Ricardo Espírito Santo. Não foi coisa pequena e o resultado vê-se até hoje.

[A escadaria na entrada (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Pour le plaisir des yeux — um regalo para os olhos.

Mas, para lá da pompa e circunstância das suas áreas nobres, que sempre me levam a reservar alguns minutos para as passar em revista (nem que seja de fugida), o que me trouxe de volta ali, dias atrás, foi a paparoca.

[Chef Luís Baena (©joão miguel simões todos os direitos reservados)]

O chef Luís Baena, um discípulo assumido da cozinha tecnoemocional sempre que o faz num registo mais autoral (e tentou fazê-lo no seu restaurante lisboeta Manifesto que, ao que tudo indica, encerra as portas no mês de junho...), ocupa — desde 2007, se não me falha a memória — o cargo de chef executivo do grupo Tivoli Hotels & Resorts.

[O restaurante Seteais (foto de divulgação)]

Não é pêra doce e obriga a um bom jogo de cintura, já que tem de estabelecer, constantemente, um compromisso entre o que é a sua linha de cozinha e as necessidades práticas dos hotéis.

No caso de Seteais, onde funciona um restaurante com o mesmo nome de amplas vistas para os maravilhosos jardins, o chef em funções é António Santos, mas Baena, claro, tem uma palavra a dizer.

[O restaurante Seteais (foto de divulgação)]

Ainda que os hóspedes sejam a prioridade, o hotel sabe que atrair clientela de fora é fundamental nos dias que correm. Tanto mais porque Sintra continua a ser um destino incontornável para os passeios de fim-de-semana de muito boa gente.

Nesse sentido, e ajuizadamente parece-me, têm vindo a apostar em cartas mais nacionais, com uma degustação preparada no famoso trolley da Christofle nos jantares de sexta e sábado ou ainda um carro-buffet de 18 acepipes servido nos almoços de domingo. Igualmente tentadores são os lanches à portuguesa, outra tradição recuperada aos fins-de-semana, entre as 16.00 e as 18.30, que incluem pães, queijos e charcutaria regionais, além de bebidas mais adequadas ao verão (sumos naturais, capilé...) e inverno (chás da TWG e chocolate quente).

[A postos para a maridagem com os vinhos de Colares (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

No almoço em que estive, uma ocasião especial, Baena assumiu a cozinha e veio inúmeras vezes à sala para explicar o casamento que realizou entre os vários pratos e os vinhos selecionados da Adega Regional de Colares.

[A salada de mexilhões (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Assumo: do que comi — salada morna de mexilhão com legumes temperados com vinagrete de ananás, maracujá e goiaba, de entrada; robalo recheado com cogumelos e tomate, puré de batata, crosta de salsa e molho de camarão da costa; carrilheira de novilho confitada, arroz cremoso de beterraba fumada; e travesseiro de Sintra com gelado de chá preto dos Açores de sobremesa —, nada me entusiasmou por aí além, mas entendo que se tratava de um menu mais abrangente, com limitações de ordem prática e a obrigação, provável, de cumprir um orçamento.

[O Robalo (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Por outro lado, foi interessante ouvir o Aníbal Coutinho, enólogo, crítico de vinhos e consultor da carta de bebidas da rede Tivoli, a explicar porque se impõe uma maior atenção às novas colheitas (e não só) que estão a sair da mais antiga cooperativa do país — a Adega de Colares foi fundada em 1931 —, integrada numa região demarcada que leva a denominação de origem e a indicação geográfica de Vinho Regional Lisboa.

[O travesseiro com o gelado de chá preto, a acompanhar o licoroso Conde de Oeiras (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Curioso é que muitos não saibam, mesmo os portugueses, que na região de Lisboa se produzem bons vinhos desde há muito. A prová-lo, não só os de Colares — de que fazem parte os do Senhor d'Adraga, do Casal de Santa Maria e de quem já falei aqui —, mas também o Conde de Oeiras, para dar outro exemplo. Este vinho licoroso, muito associado ao Marquês de Pombal, foi-nos aliás servido com a sobremesa, numa manobra de charme que atesta bem a vontade em recuperar também o Vinho de Carcavelos.

À falta de outras oportunidades, ficam a saber que em Seteais alguns destes vinhos estão na carta e podem ser desfrutados por quem ali for. 

Tivoli Palácio de Seteais | Rua Barbosa do Bocage, 8, Sintra, tel. 219 233 200
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