29.10.11

fora de portas: the oitavos, parte 2 | diner du chef e outras coisas boas par cyril devilliers

[Sala do Ipsylon Restaurante e o chef Cyril Devilliers (fotos de divulgação)]

Volto a The Oitavos e à Quinta da Marinha, na Costa do Estoril, por um motivo mais do que válido.

Quando este hotel cinco estrelas abriu portas há pouco mais de um ano, a sua arquitectura translúcida e o formato em Y não foram as únicas coisas a gerar expectativas e a dar azo a conversas.

Miguel Champalimaud, o mentor do projecto, tinha grandes planos para a cozinha de The Oitavos e para isso contratou o chef francês Aimé Barroyer, com provas mais do que dadas em Portugal ao serviço do Pestana Palace.

Mesmo antes da inauguração, as coisas não correram como o previsto e Barroyer saiu para o Tavares. Em sua substituição, como chef executivo, entrou em cena outro francês radicado em Portugal, Cyril Devilliers.

Nascido na Normandia, onde desde cedo conviveu com uma cozinha de terroir mais rústica, Cyril, de apenas 34 anos, tem feito um percurso digno de registo na alta gastronomia, onde já passou por nada menos que três restaurantes com estrelas Michelin. Em Portugal, antes de assumir a restauração de The Oitavos, foi o braço direito de Joachim Koerper no Eleven, em Lisboa, e chef de banquetes no Penha Longa Hotel, em Sintra.

Nem tudo foram acertos neste meio-tempo. Por outro lado, o facto de os restaurantes ficarem num hotel — ainda para mais num hotel afastado, em plena Quinta da Marinha, tida como um reduto exclusivo e elitista — também não ajudou a que se tornassem mais conhecidos do grande público.

Tudo isso pode mudar agora. Assim haja um trabalho consistente de maior divulgação e se contrariem certas ideias-feitas. Trunfos já têm, como é caso da excelente pastelaria que elogiei no post anterior — que pode e deve ser catapultada como um dos cartões de visita de The Oitavos — e da fórmula "Diner du Chef", com uma boa relação qualidade-preço, de que vou falar a seguir.

[A ementa do "Diner du Chef" (clique na foto para aumentar e ler)]

A primeira coisa a reter sobre os "jantares do chef" é que não existe uma ementa pré-definida. Com base na estação do ano e no que houver nesse dia no mercado, Cyril Devilliers e a sua equipa criam um menu com entrada, prato de peixe, prato de carne, pré-sobremesa, sobremesa, café e petits fours. O preço por pessoa é de €60 (sem bebidas, pelo que compensa pagar mais €10 à cabeça e fazer a maridagem de cada prato com um vinho).

[Amuse-bouche: croquetes de língua estufada (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Cyril é quem faz as honras da casa e apesar de, ao longo do jantar, ir várias vezes à mesa, aproveita a chegada dos comensais para os receber na cozinha e lançar uma pequena brincadeira do tipo dou-um-doce-a-quem-adivinhar-o-que-isto-é. "Isto" são croquetes, servidos como amuse-bouche, de ar apetitoso. Primeira trinca e há alguém que arrisca: choco!

Cyril ri-se e não desarma logo. Deixa-nos saborear mais um pouco. Mas ninguém dá mostras de conseguir resolver a charada. Para alguns é tarde demais — porque já comeram e gostaram — quando revela, finalmente, tratar-se de língua de vaca estufada com gengibre, cardamomo e pimenta. Divertido, o chef dá a receita: depois de estufada, é retirada a pele, faz-se um Bechamel com o caldo (e mostarda) e a carne é frita numa tempura muito suave. O resultado final ilude qualquer um, pois não se sente a textura da língua.

[Como entrada, Mexilhões Fartos de Porco Preto (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Já sentados à mesa do Ipsylon Restaurante, foi-nos servido, como entrada, mexilhões sobre porco preto. A acompanhar várias verduras, mas merece destaque o "caviar" feito com a última colheita da época de beringelas da Quinta do Poial, e o branco Luís Pato Maria Gomes (2010).

[O prato de peixe, Bouchon de Tamboril (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

O prato de peixe veio a revelar-se o meu preferido da noite. Bouchon de tamboril, alho francês confitado em miso (obtido a partir da fermentação do arroz, da cevada e da soja), batata ratte, crème fraîche. Por ser a época deles, Cyril não resistiu a acrescentar alguns percebes. A maridagem foi feita com o mesmo branco da entrada

[O prato de carne, Vitela Mirandesa (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Nas carnes, nacos de vitela mirandesa, muito macios, com bearnaise e batata recheada tipo tartiflette. A acompanhar, um tinto Monte da Ravasqueira (2009). Há uns tempos perguntei a um outro chef o porquê de não se ver mais carne mirandesa na alta gastronomia e a resposta deixou-me algo desalentado: é difícil encontrar produtores na disposição de vender apenas peças; a maioria exige que se compre o animal inteiro, o que se torna inviável para os restaurantes...

Claro que do "Diner du Chef" fazem ainda parte as sobremesas, mas como me adiantei e falei nelas no post anterior, acho que não preciso me repetir. 

[Cyril Devilliers na área externa de The Oitavos (foto de divulgação)]

O bom de hotéis polivalentes como The Oitavos é que a sua oferta nunca se esgota numa só opção. Por isso mesmo, a fórmula "Diner du Chef" é apenas uma das possibilidades, que pode e deve guardar para uma ocasião mais especial. Para o dia a dia, em que nos apetece coisas mais simples, mais rápidas e menos caras, os outros restaurantes de The Oitavos são, por incrível que possa parecer a alguns, uma alternativa perfeitamente razoável como demostrarei de seguida.

[Na cozinha, Cyril Devilliers prepara mexilhões recheados com carne, que serviria depois como entrada (©joão miguel simões, direitos reservados)]

Com quatro restaurantes, sem contar os eventos, a seu cargo, o chef normando não tem muito tempo livre para ir até ao fornecedores. Por isso mesmo são eles que, todos os dias, se deslocam até ao The Oitavos, logo a partir das sete ou oito da manhã, para entregar a mercadoria. Este é um processo, claro, que se passa nos bastidores, mas fundamental para assegurar a tal cozinha de mercado, marcadamente sazonal, que Cyril Devilliers quis imprimir como registo.

[A ementa do Ipsylon Bar & Lounge (clique na imagem para aumentar e ler)]

[No sentido horário: piscina interior, ostras da Ria Formosa, Niguiris e Ceviche, servidos no Ipsylon Bar & Lounge (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Mas volto à proposta de demonstrar que a cozinha de The Oitavos também pode ser abordável. Nada como um dia de Outono cheio de sol para nos darmos ao luxo de comer alfresco. A ementa do Ipsylon Bar & Lounge é bastante variada, mas é grande o risco de ficarmos logo nos petiscos e snacks, até porque estes se prestam a ser partilhados e dão-nos a ilusão de serem mais leves.

O facto é que, uma vez entusiasmados com a variedade de opções, é fácil darmos por nós numa mesa cheia e sem sabermos muito bem por onde começar. Da lista, provei o Mexido de Bacalhau e Azeitonas (€3,50), os Spring Rolls de Camarão com molho Thai-Chili (3 unid./€4,50), o Ceviche (€10), os Niguiris (3 unid./€3,50) e as Ostras da Ria Formosa ao Natural (3 unid./€6). As ostras estavam especialmente frescas e Cyril não esconde ser um grande admirador das ostras portuguesas. 

[O cheeseburger no prato na versão de Cyril Devilliers (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

O bom senso "não ter mais olhos do que barriga" não prevaleceu inteiramente. Mais do que satisfeito com os vários petiscos e snacks, cedi ainda à tentação de provar o cheeseburger no prato segundo Cyril Devilliers (€14).

Antes que se apressem a julgar-me (mal) — afinal, onde já se viu optar por fast food em detrimento de outras iguarias —, permitam que me explique: com 180 gr de carne de primeira (tal como acontece na versão hambúrguer no prato), este cheeseburger de assinatura é tão suculento, com seus molhos e tirinhas fritas e crocantes de cebola, que dispensa outros acompanhamentos. Ou, pelo menos, foi assim que fiz. E não me arrependi.  

The Oitavos, Rua de Oitavos, Quinta da Marinha, Cascais, tel. 214 860 020
4 áreas de restauração distintas, incluindo uma com assinatura gastronómica, o Ipsylon Restaurante; o Bar & Lounge Ipsylon, onde predomina a informalidade; o Atlântico Pool Bar, localizado na zona da piscina exterior; e o restaurante do Oitavos Dunes Club House, o Verbasco

26.10.11

fora de portas: the oitavos, parte 1 | as gulodices do chef joaquim de sousa

[As dunas em redor de The Oitavos, na Quinta da Marinha, Cascais; abaixo: sundeck do Atlântico Pool Bar (fotos de divulgação)]

Pergunto-me, e já agora estendo a questão a quem me está ler: a grande maioria das pessoas continua a encarar com reserva os restaurantes de hotel?


Corrijo. Porventura, nem se trata mais de "reserva" no sentido de preconceito. Terá mais a ver, parece-me, com um certo receio de entrar em território "proibido". Posso estar equivocado, claro, mas tenho a impressão que muito boa gente se acanha diante da perspectiva de atravessar o lobby de um hotel para desfrutar apenas do(s) seu(s) restaurante(s).

Estarei enganado?

Uma coisa é certa, essa foi, desde cedo, uma das minhas preocupações e, sempre que se justifica, procuro desmistificar essa coisa dos "restaurantes de hotel". Há os que não passam disso mesmo, mas há também, e são cada vez mais os bons exemplos, aqueles que, por si sós, representam uma atracção à parte.

É o caso de The Oitavos. A escassa meia-hora de carro de Lisboa, na Costa do Estoril, este hotel cinco estrelas, em forma de Y, inaugurou, em finais de 2010, uma nova era para a exclusiva Quinta da Marinha.


Virado para o mar, rodeado de dunas, pinhal e um campo de golfe, The Oitavos começou por ter uma mais-valia nada desprezível — e de que muitos, arrisco-me a dizer, ainda não se deram conta: abriu a um público maior a zona residencial, dotada de excelentes infra-estruturas de lazer, que mais associamos em Portugal aos muito ricos.


E não é preciso ficar ali hospedado.


[O restaurante de assinatura de The Oitavos, o Ipsylon (foto de divulgação)]


Confuso? Eu explico melhor. Aliás, o propósito deste post é, precisamente, falar dos seus restaurantes, num total de quatro, que estão abertos a qualquer pessoa e que, ao contrário do que muitos julgarão, não cobram nenhuma fortuna.


A cargo do francês Cyril Devilliers, a restauração de The Oitavos entrou nos eixos, depois de um começo tumultuado e de alguns desacertos que não vale a pena repetir, e tem, a meu ver (mas não sou o único a reparar), um trunfo muito especial: o chef-pasteleiro Joaquim de Sousa.


[O chef-pasteleiro Joaquim de Sousa, a serviço de The Oitavos desde 2010 (foto de divulgação)]


Acreditem, ele é, na actualidade, um dos melhores que temos no género e foi, em grande parte, responsável pelo patamar de excelência (com prémios vários que o confirmam) que atingiu a doçaria num outro hotel de Lisboa por onde passou, o Pestana Palace.


Nascido em França, o chef de 38 anos fez também muito do seu percurso profissional nesse país, o que se nota bem no tipo de pastelaria fina que pratica. Mais do que apenas um virtuoso, ele é um perfeccionista e um criativo, pelo que tudo o que sai da sua lavra tem sempre um toque de autor.


Com o seu talento reconhecido em diversas competições nacionais e internacionais, a pastelaria de Joaquim de Sousa é o tipo de coisa que justifica plenamente que se vá de propósito a The Oitavos. E que, já agora, se quebrem as ideias-feitas que ainda possam subsistir sobre a possibilidade de, se preciso for, ser legítimo, e perfeitamente natural, entrar num hotel nem que seja só para tomar um café ou fazer um lanche  a qualquer hora do dia.


[Pré-sobremesa por Joaquim de Sousa, com ginjas e gelatina de maracujá (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


O Ipsylon Restaurante é, por excelência, a mais gourmet e sofisticada de todas as apostas de The Oitavos, pelo que serve apenas jantares. Jantares de assinatura, a que chamaram "Diner du Chef", com um custo de €60 por pessoa (€70 se devidamente maridados com vinhos) e cuja ementa é decidida diariamente pelo chef Cyril Devilliers — de quem falarei num próximo post — com base no que há no mercado.


[Sabores de Outono, um das sobremesas servidas no Diner du Chef (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


O grand finale dos "jantares do chef", porém, fica por conta de Joaquim de Sousa. Após uma pré-sobremesa, segue-se sempre a sobremesa propriamente dita. No dia, ou melhor na noite, em que ali estive, coube-me em sorte "Sabores de Outono", uma verdadeira orgia para chocólatras: biscuit de chocolate com amêndoa, panacota, trufas quentes de chocolate e sorbet de tangerina.


[E estava tão boa que não sobrou nada... (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


Joaquim de Sousa, permito-me aqui um pequeno à parte, tem uma predilecção toda especial pelo chocolate. Membro-fundador do Cacau Clube de Portugal e mentor de um projecto de produção de chocolate, ele é, há cinco anos consecutivos, o grande vencedor do concurso "Chocolatier do Ano" promovido pelo Festival de Óbidos.


[Morangos, Hortelã e Creme de Arroz, uma das criações mais bem conseguidas de Joaquim de Sousa, com sorvete de manga ao fundo (@joão miguel simões, todos os direitos reservados)]



Mais uma razão, portanto, para não desperdiçar um bom pretexto. Com quatro áreas de restauração distintas, do mais ao menos formal, do mais ao menos dispendioso, em The Oitavos tiveram a feliz ideia de criar diferentes opções, e situações, para degustar as doces criações de Joaquim de Sousa. Um exemplo disso é a carta do Ipsylon Bar & Lounge, com as seguintes opções:


Tatin Alperce, gelado de amêndoa (€6) 
Morangos, hortelã e creme de arroz (€7,50)
Lima, limão, merengue e manga (€6)
Os 3 Chocolates (€11)
Babá em calda de maracujá e ananás (€7,50)
Chocolate, côco e banana (€9) 
Tequila Sunrise "sólida" (€8) 
Gelados e sorbets (€3, 1 sabor à escolha: baunilha, arroz doce, chocolate, canela, café e whisky; mandarina, ginja, frutos vermelhos, vinho do Porto, limão e hortelã) 
Fruta da época (€5)


[No fundo, trata-se de uma releitura do arroz doce (@joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


Além destas opções à carta, estão ainda previstas três outras modalidades de "degustação doce", para quem leva estas coisas mais a sério, pensadas para duas pessoas:


Da nossa carta: Tequila Sunrise, limão e merengue, tatin de alperce e sorbet de manga (€15)
Da tradição: Creme de arroz doce, farófia, toucinho do céu e sorbet de vinho do Porto (€16)
A escolha do Chef: selecção de 8 a 10 variedades à escolha do nosso chefe pasteleiro (€20)

Desenganem-se, contudo, aqueles que julgam que tudo se esgota nas sobremesas. Outras pequenas, mas sempre deliciosas, atenções foram pensadas pelo chef-pasteleiro para acompanhar o café. 

[As mignardises servidas com o café (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Sim, um café em The Oitavos pode até custar mais do que numa simples esplanada ou cafetaria (€2,50, a título de exemplo, no Atlântico Pool Bar), mas, em compensação, não chega à mesa sozinho. Consoante os casos, podem ser mignardises (sobremesas em versão miniatura) ou petits fours (doces como bombons, trufas...). Por norma, quando servidas no final de uma longa refeição, estas guloseimas têm uma missão ingrata, pois são poucos os que ainda conseguem ter mais olhos do que barriga após vários pratos e sobremesas; já em em actos isolados brilham por direito, e mérito, próprio.

[Os petit fours servidos com o café (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Para terminar, não resisto a partilhar a receita da Tarte Tatin de Alperce servida em The Oitavos (€6), que, gentilmente, o chef Joaquim de Sousa me revelou e ensinou passo a passo.

[Primeiro passo para começar a Tarte Tatin (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Ingredientes:
30 gr de massa folhada
100 gr de alperce
50 gr de açúcar
15 gr de manteiga

Para a gelatina de maracujá:
50 gr polpa de maracujá ou sumo
1 folha de gelatina
5 gr de açúcar

Para a guarnição:
10 gr açúcar amarelo
50 gr de gelado ou sorvete
Decoração chocolate
Rebentos e hortelã

[A fase de "empratamento" da Tatin Alperce (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Preparação:
Cozer a massa folhada num forno a 200 graus. Uma vez cozida, é o momento de a caramelizar.
Aquecer a polpa de alperce juntamente com o açúcar. Juntar a folha de gelatina (previamente demolhada) e deixar arrefecer no frio.


[A Tatin Alperce em versão final (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Unte uma forma com manteiga e cubra a manteiga com açúcar. Em seguida coloque o alperce cortado em quartos e leve ao forno, aquecido a 180 graus, por 10 minutos. Deixe arrefecer.
Quando o alperce estiver frio, coloque-o sobre a massa folhada e caramelize com açúcar. Coloque depois num prato, a que vai juntar a gelatina, decorada com rebentos, e uma bola de gelado ou sorvete a gosto (em The Oitavos servem com gelado de amêndoa), enfeitada com uma armação de chocolate.

The Oitavos, Rua de Oitavos, Quinta da Marinha, Cascais, tel. 214 860 020
4 áreas de restauração distintas, incluindo uma com assinatura gastronómica, o Ipsylon Restaurante; o Bar & Lounge Ipsylon, onde predomina a informalidade; o Atlântico Pool Bar, localizado na zona da piscina exterior; e o restaurante do Oitavos Dunes Club House, o Verbasco

8.9.11

go arte urbana by citroën ds3

[Os dois Citroëns DS3 personalizados (foto divulgação)]

A iniciativa começou em Agosto, mas dura três meses, e só agora tive tempo para falar aqui dela.

Não sei como está a correr na prática, mas, como ideia, tem tudo para dar certo e para constituir uma forma diferente de ver e desfrutar a cidade.

Passo a explicar.

Nos últimos anos, a chamada arte de rua passou a ser encarada com maior seriedade e vista com outros olhos — muito graças à projeção internacional de artistas como Banksy —, mas, ainda assim, há quem insista em não enxergar as diferenças entre estas intervenções e o simples vandalismo.

Com graffitis premiados — só para dar um exemplo recente, o jornal britânico The Guardian elegeu o graffiti num prédio devoluto da avenida Fontes Pereira de Melo (que reproduzo abaixo), realizado por OsGemeos (dois irmãos de São Paulo), o italiano Blu e o espanhol Sam3, como um dos 10 melhores trabalhos de arte urbana do mundo —, a cidade de Lisboa está debaixo de mira e por isso a agência Torken, em colaboração com a Câmara Municipal, desenvolveu para a GAU (Galeria de Arte Urbana) um conjunto de ações das quais destaco o programa "Reciclar o olhar".

[O graffiti num prédio devoluto de Lisboa que chamou a atenção do The Guardian (foto com direitos reservados)]

Para o efeito convidaram um conjunto de autores — Dalaiama, Diogo Machado, Edis One, Glam, I am from Lisbon, Kebekua, Maria Imaginário, Miguel Brum, Nurea, Pantónio, ParizOne, Recan, Rui Ventura, STU, Travis, Vanessa Teodoro e CHURE — a deixar o seu registo plástico em vidrões "Iglo" espalhados pela cidade.

[Um tour de arte de rua exige dois carros à altura, personalizados por street artists (foto divulgação)]

Só isso já seria interessante, mas o mais giro é que qualquer pessoa, turista ou não, se pode inscrever no sítio da Gau e nas redes sociais (estão previstas também aplicações para iPhone e iPad) para, com guia e a bordo de um Citroën DS3 personalizado por ParizOne e Vanessa Teodoro, passar em revista as várias obras seleccionadas nas ruas de Lisboa. 

Deixo-vos aqui o vídeo e também o link para quem se quiser inscrever nos tours.

7.9.11

nuno baltazar pop store na fno lisboa 2011 (8 a 10.09)


Não me vou alongar muito sobre a Fashion's Night Out, mas entre todos os eventos que vão tomar conta da cidade, acho que vale pena falar um pouco da Nuno Baltazar Pop Up Store.

Sei que muita boa gente já perdeu a paciência para esta coisa das lojas pop up, que pipocam ao sabor das modas, mas, tendo em conta o foco da FNO e que a iniciativa do designer Nuno Baltazar não se vai limitar à tarde e noite do dia 8 — a loja tem prazo de validade, mas prolonga-se até dia 10 de Setembro, entre as 10.30 e as 19.30 —, justifica que se lhe dê ao menos o benefício da dúvida.

Instalada no nº60 da rua Garrett, ao Chiado, a loja temporária  vai trazer até à capital portuguesa aquilo que, por regra, só se encontra na matriz do Porto. À venda estarão peças da coleção feminina, mas também velas, acessórios, perfumes para a casa e até livros de lifestyle. A preços de amigo, prometem.

Ah, e quem os visitar no dia 8, entre as 19 e as 23 horas, vai ser recebido com uma bebida de boas-vindas.

6.9.11

sushi no terreiro do paço by origami


Conheço o restaurante Terreiro do Paço e já falei dele aqui. No regresso de férias, chegou-me a notícia de que o espaço, a cargo do grupo Lágrimas Hotels, juntou o sushi, em buffet e à la carte, às suas opções. Como ainda não fui lá para provar, vou-me limitar, para já, a transcrever o press release (abaixo) e a reproduzir o menu (acima).

O restaurante Terreiro do Paço em parceria com a Origami Sushi Bar, apresenta uma nova proposta para as sugestões de almoço junto ao rio, menus de sushi para são as melhores refeições de verão. Agora poderá encontrar as nossas sugestões de sushi ao almoço, à carta ou em buffet, e ainda ao jantar, apenas à carta, para poder escolher a sua combinação de sushi favorita.

O convite a vir provar os melhores pratos de sushi, apresenta um Menu com pratos muito variados, e está disponível por 15€ ao almoço e, de terça-feira a sábado, poderá  ainda conciliar com este menu de sushi o menu habitual do Terreiro do Paço, a combinação perfeita por apenas 18€. Se a escolha for à carta, sugerimos a degustação de especialidades Tokushitsu, com 20 tipos diferentes de sushi e que se apresenta em menus para uma ou duas pessoas, a partir dos 10€. 

Pátio da Galé, Praça do Comércio, tel. 210 995 679, de seg. a sáb., almoços entre as 12.oo e as 15.30 (a esplanada funciona todo o dia); jantares entre as 20.00 e as  00.00 (das 00.00 às 02.00 com uma carta especial)

23.8.11

fora de portas: um dia em sintra (1), quanto vale o palácio da pena?

[Vista aérea do Palácio e Parque da Pena, em Sintra (foto com direitos reservados)]
Como os demais lisboetas, também eu, por conta dos afazeres, do trânsito, do pavor a enchentes de fim-de-semana e de outros pretextos que tais, acabo por ir a Sintra muito menos vezes do que deveria.

E, ainda assim, sempre que lá vou, muito raramente dou o tempo por mal empregue.

Felizmente, de quando em vez dou por mim a ter de fazer de cicerone a amigos de fora e Sintra, certo e sabido, faz quase sempre parte do "pacote".

No último sábado, num dia atípico de Verão — o que me deu logo a secreta esperança de encontrar a vila mais esvaziada de turistas... —, foi o que fiz.

Cumprida a visita "obrigatória" à Quinta da Regaleira — a minha atracção preferida em Sintra, assumo —, saboreadas as primeiras queijadas da Sapa e feito o reconhecimento ao centro histórico, impunha-se uma decisão: escolher um dos palácios da vila, já que não teríamos tempo, nem paciência, para visitá-los a todos de rajada numa única tarde.

[Palácio da Pena visto do parque (©pedro casquilho, todos os direitos reservados)]

Por unanimidade, o escolhido foi o Palácio da Pena.

Antes, porém, um preâmbulo. Salta à vista desarmada que, ao abrigo do programa Sintra INOVA, a vila está mais organizada e modernizada para melhor servir os turistas. Exemplos? Venda online e pontos alternativos de venda de bilhetes para dispersar as filas de espera, controlo electrónico de estacionamento, sistema de videovigilância, os principais espaços da Paisagem Cultural interligados por um anel de comunicações em fibra óptica ou até um sistema multimédia 3D da mesma.

Até aqui tudo bem. Conveniente também a criação de três linhas de autocarros que, a intervalos regulares, percorrem as principais atracções de Sintra e arredores, dispensando o uso do automóvel.

Animados por esta perspectiva, apanhámos o autocarro que faz o Circuito da Pena e logo nos foi cobrado, à cabeça, €5 por ida e volta. "Meio Salgado" poderiam ter dito os meus amigos brasileiros, mas educamente não soltaram um ai e até elogiaram o serviço.

De facto, funciona bem. Mas chegados à entrada do Palácio da Pena, cobraram-nos mais €12 por pessoa (bilhete normal de adulto, sendo que existem várias modalidades, inclusive um bilhete de família por trinta e poucos euros), o que achei um exagero.

[A guarita em forma de minarete com cúpula mourisca (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Não confundamos as coisas. O Palácio da Pena precisa ser mantido com dignidade e houve um claro investimento no parque em seu redor, que, ao contrário do que acontecia há alguns anos, pode agora também ser visitado com percursos e atracções devidamente assinaladas num mapa distribuído juntamente com o bilhete. Mas a Pena não é Versalhes e €12 parece-me um preço muito exagerado.

O pior é que não fica por aqui. Entre a entrada no complexo e a entrada no palácio dá mais de um quilómetro de subida ou descida íngreme. Não é para todos, por isso mesmo há um serviço de autocarro para assegurar o trajecto. Seria lógico que o transporte estivesse incluído no preço da entrada, não? Pois não está. São mais €2 por pessoa, ida e volta.

[O mapa distribuido à entrada, juntamente com os vários bilhetes de acesso à Pena (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Resumo da história: €19 por pessoa. Por muito que eu goste da Pena e reconheça a sua singularidade, não posso deixar de me interrogar se vale tudo aquilo que custa actualmente. 

E é uma pena; não gosto de ter este tipo de dúvidas.

Palácio e Parque da Pena, www.parquesdesintra.pt, horários de visita: parque, das 09.30 às 20.00 (época alta) e das 10.00 às 18.00 (época baixa); palácio, das 09.45 às 19.00 (época alta) e das 10.00 às 17.00 (época baixa)

29.7.11

tascarepública

[Velharias e peças desencontradas, é esta a nota dominante da TasCaRepública, para os lados de São Bento (fotos de divulgação)]

Há quem nunca lhes tenha virado as costas, mas esses, provavelmente, não são  hoje os clientes que frequentam as novas tascas e tabernas de Lisboa. 


A cada dia que passa, a moda alastra e não deve parar tão cedo, mesmo em tempos de alardeada crise.

[A entrada, assumidamente kitsch (foto de divulgação)

Grosso modo, a fórmula parece simples e não difere muito de caso para caso, o que não quer dizer que sejam favas contadas. Às tascas e tabernas de agora, para lá do estilo garagem-sotão-arrecadação-meets-feira-da-ladra que se tornou quase um uniforme corporativo, não podem faltar bons petiscos à portuguesa (mas com um toque de novidade), uma lista de vinhos marcadamente nacional e alma convivial, essa subtileza intangível, mas determinante, para que um lugar caia no goto e outro não.

[A colecção de relógios de parede, com e sem cuco, da TasCa (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

A TasCaRepública (é assim mesmo que se escreve, tudo ao molho, para induzir ao duplo sentido sempre tão apreciado pelo humor tuga), a meio caminho entre o Rato e São Bento, conseguiu-o e vive em estado de graça desde finais de 2010, altura em que abriu as portas, em vésperas das comemorações do Centenário da República.

[foto de divulgação]

Francisco e Maria Adelaide Completo, o casal de proprietários, testaram o conceito na sua primeira tasca, a do Urso que fica para os lados do Príncipe Real, mas esta, pela sua localização, ganhou desde logo uma clientela muito especial aos almoços. Claro que ajuda ter um menu a €10 com escolha de pratos portugueses, mas não é (só) por isso que a Assembleia da República, em peso, pára ali para almoçar. O ambiente conta muito. A discrição, no melhor género as paredes-podem-ter-ouvidos-mas-fica-tudo-aqui, também.

[A ementa ao jantar (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Aos jantares, a coisa muda de figura. Mas nem por isso é menos concorrida. Durante meses a fio, sempre que eu ou algum amigo se lembrava, à última da hora, de querer ir experimentar, dávamos, em bom português, com os burros na água. Lotada.

[A louça antiga e o couvert com broa e tremoços (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Por fim, numa destas noites mais sossegadas, em que meia Lisboa se pira para outras paragens de veraneio, eis que eu e uma cúmplice habitual nestas incursões gastronómicas conseguimos o nosso intento. Aleluia.

[Tiborna de presunto (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Com duas salas, a TasCa não é grande, mas está cheia de detalhes, alguns dos quais de gosto assumidamente duvidoso. Acho graça ao diner luminoso à entrada, a fazer pandan com um carrinho de bebé que serve de bar. Nas mesas, há cadeiras desencontradas, naperons de plástico e pratos desirmanados.

[Alheira transmontana com queijo Chèvre e geleia de tomate (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Na carta dos jantares, já dei a entender, os petiscos são quem mais ordena, havendo apenas 4 opções de pratos de faca e garfo. A lista é grande, mas têm muita saída as tirbornas de presunto, a alheira transmontana com chèvre e geleia de tomate (frita no ponto, e não a desfazer-se), os peixinhos da horta, as pataniscas de bacalhau com molho de iogurte, os cogumelos recheados com queijo e ervas, e por ai vai.

[Espera-Maridos, a sobremesa a que os mais gulosos não resistem (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

A Carta de vinhos dá maior destaque aos tintos, com preços médios. Não era o caso naquela noite, mas acho que numa legítima tasca nunca é demais ter igualmente boas opções de vinho a copo. Se havia, não dei por elas.

No couvert, gostei do detalhe da broa, entre mais um ou dois tipos de pão, num cesto com pano bordado e dos tremoços. Típico e oportuno.

Nas sobremesas, quem lá conseguir chegar depois dos entreténs de palato, a mousse de lima é boa (mas seria ainda melhor se estivesse mais fria) e o Espera-Maridos não desilude quem aprecia doces portentosos. 

Quase 30 euros à cabeça (com vinho e uma caipirinha de aperitivo) e o sentimento de dever cumprido.

Rua de São Bento, 312, tel. 213 951 583, almoços, de seg. a sáb.,  entre as 12.00 e as 15.00; jantares, de ter. a sáb., entre as 18.30 e as 02.00

22.7.11

a nova duque d'ávila

[Snoopy Parade, na Duque d'Ávila até 15 de Agosto (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Depois de anos e anos — tantos que lhes perdi a conta — entaipada, a avenida Duque d'Ávila foi finalmente devolvida à cidade e está, aos poucos e poucos, a apanhar o ritmo e a encher-se de vida.

As obras de alargamento da rede do Metropolitano, neste caso entre as estações do Saldanha e de São Sebastião, levou  muitos lisboetas  a evitarem-na e a procurarem alternativas, o que só penalizou ainda mais os comerciantes da zona. Muitos deles não aguentaram e fecharam as portas. 

[Snoopy Parade, na Duque d'Ávila até 15 de Agosto (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]
 
[Snoopy Parade, na Duque d'Ávila até 15 de Agosto (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

A quem resistiu, um merecido prémio. A Duque d'Ávila, além da ciclovia em pleno coração de Lisboa — luxo inédito por cá —, tem agora mais bancos para ficar a ver a cidade passar, novas esplanadas e, de dia para dia, miúdos e graúdos que se rendem às suas vantagens para passear, fazer jogging e andar de bicicleta ou patins em linha.

[Snoopy Parade, na Duque d'Ávila até 15 de Agosto (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

[Snoopy Parade, na Duque d'Ávila até 15 de Agosto (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

[Snoopy Parade, na Duque d'Ávila até 15 de Agosto (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Isto sem contar com a Snoopy Parade, que, até 15 de Agosto, está a fazer as delícias de todos os que passam por ali e não resistem a interagir com as versões "customizadas" do célebre cachorro. As 20 estátuas, com 2,6 metros de altura, foram criadas por figuras como o humorista Herman José ou as decoradoras Graça e Gracinha Viterbo e vão ser leiloadas no final da iniciativa.
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