22.6.11

estrela, parte 1 | o hotel

[Entre jardins, a vista a partir do Hotel da Estrela pode ser tão abrangente como a que se vê na foto; abaixo: a fachada do antigo palácio agora convertido em hotel (fotos de divulgação)]


Em um ou outro trecho, a Saraiva de Carvalho, entre o Largo do Rato e a Ferreira Borges (já em Campo de Ourique), permite-se alguma largueza, mas é, no geral, uma rua esguia e delgada.

E ainda assim, espaço é coisa que não falta ao Hotel da Estrela, inaugurado em finais de 2010, o benjamim da já considerável prole do Grupo Lágrimas Hotels.

Paredes-meias com a Escola de Turismo e Hotelaria de Lisboa, o hotel, instalado no antigo Palácio dos Condes de Paraty, não faz disso uma coincidência. Nem podia. A concessão do mesmo, atribuída em concurso pelo Turismo de Portugal, previa desde logo entre as duas unidades uma cooperação a diversos níveis.

Mais do que um hotel-escola (porque, sim, muitos dos seus colaboradores são estudantes), este é um hotel que, pelas várias circunstâncias e especificidades inerentes à sua condição, decidiu que o seu tema não poderia ser outro que não a escola. 

É que, não bastasse ter por vizinha a Escola de Hotelaria, nas redondezas fica outro dos mais emblemáticos estabelecimentos de ensino da capital: a Escola Secundária Pedro Nunes, antigo liceu, entretanto fundida com a igualmente histórica secundária Machado de Castro.

[Vários detalhes da recepção, que nos remetem logo para uma sala de aulas da primeira metade do século XX (fotos de divulgação e de ©joão miguel simões)]

Explicados os porquês, só estranha à chegada quem ali for parar ao engano. Nos últimos tempos, há uma certa tendência para que mais e mais hotéis transformem as suas recepções em salas de estar. No caso do Hotel da Estrela, a recepção convida a estar, que para isso lá estão dois enormes sofás bojudos (que já foram brancos e agora são de muitas cores, como mantas de retalhos), mas qualquer semelhança com uma sala de aulas não é pura coincidência.

[A biblioteca, contígua à recepção, é um espaço de trabalho ou lazer, onde existe um honesty bar (@joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Em vez de um balcão corrido, as duas secretárias do check in-out, austeras assim como as cadeiras à sua frente, são as mesmas que os professores de antes usavam. Atrás, uma enorme ardósia negra. Por momentos, recuamos no tempo — olho à volta e vejo bibes pendurados num bengaleiro, um busto da República (só não se colocou, por motivos óbvios de bom senso, um retrato de Oliveira Salazar, como era costume então) no topo de um armário e dois globos terrestres a ladear a entrada.

[A par dos objectos antigos, este é um hotel urbano que aposta igualmente em peças de designers contemporâneos (@joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Mas não há chamadas ao quadro, nem reguadas, nem puxões de orelha.

Trata-se de um mero exercício lúdico, muito bem trabalhado pelo designer de serviço, Miguel Câncio Martins — que dispensa maiores apresentações, tamanha tem sido a repercussão de trabalhos internacionais como o Buddha Bar de Paris ou o Pacha de Marraquexe —, com a total cumplicidade do presidente executivo do grupo, Miguel Júdice.

Pelo perfil do hotel, urbano e informal, duvido que a maior parte dos seus hóspedes tenha mais de 40, 50 anos. Assim sendo, para muitos deles, como para mim, as memórias aqui evocadas são mais as dos nossos pais e avós do que as nossas, mas a memorabilla diz-nos algo. Ela faz parte do nosso património afectivo.

E não haja equívocos. Desde o primeiro momento, fica bem claro que este é um hotel contemporâneo, audaz ao ponto de misturar, sem medos, reproduções das cadeiras plásticas mais famosas assinadas por Verner Panton ou Eames com os tais móveis e objectos — como livros de cordel, uma máquina de escrever Royal, planisférios, posters dos anos 1940, réguas, esquadros... — que habitaram o quotidiano de várias gerações de portugueses na primeira metade do século XX.

[A suite 18, a preferida do designer Miguel Câncio Martins (foto de divulgação)]


Feito o check in, depressa descubro que me calhou em sorte o nº11. Há apenas 13 quartos e seis suites, distribuídos pelo primeiro e segundo andares. A preferida, e também a mais fotografada, do Miguel Câncio Martins é a suite 18, sendo que duas delas possuem um atractivo extra: camas Hästens, a tais que são fabricadas artesanalmente na Suécia, sendo consideradas, até pelo preço astronómico, o Rolls-Royce dos leitos.


[Todos os quartos e suites possuem elementos comuns, mas depois variam no tamanho, no formato e nos acessórios (foto de divulgação)]


Ainda não foi desta que tive o prazer de ficar corpo a corpo com a realeza das camas, mas, verdade seja dita, não tive o que reclamar da minha. No geral, os restantes colchões do hotel são de primeira. Comum a todos os quartos também, certos detalhes como as cabeceiras onduladas verde-cítricas e as alcatifas de fundo negro, onde foram impressos, a branco, bonecos, palavras e fórmulas matemáticas desenhados por Câncio e pela sua filha quando esta ainda era criança. No resto, os quartos variam de tamanho, de formato e alternam cadeiras e outras peças mais ou menos utilitárias.





[Detalhes dos corredores e do quarto nº11, o que me coube em sorte (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Nos corredores, a branco e amarelo (para lembrar as cores dos bibes escolares, segundo Câncio), no lugar de placas há ardósias penduradas com o número dos quartos escritos a giz. Nas portas, em vez da placa "Do not disturb/Please make up my room", uma outra onde se lê "Studying hard/Out playing".

[A placa para colocar na porta do quarto alinha pelo mote do hotel (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Sempre a escola. E nem por coincidência, quando me chego à janela, além do Tejo (não chego a avistar a Basílica da Estrela, mas há quem tenha essa sorte de outros quartos), oiço a chilreada das crianças no recreio. Nem de propósito.

[O amanhecer na Estrela (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

O serviço é afável e informal. Por isso mesmo, indicado para uma clientela mais jovem, capaz de apreciar a maior liberdade de movimentos e o facto de estar num hotel que consegue ter vivência de bairro, sem deixar de ser cosmopolita.

O Hotel da Estrela e o seu principal mentor, Miguel Júdice, não escondem que querem receber quem vem de fora, sem se esquecerem de prestar um serviço a quem vive em Lisboa.

Como?

[O pequeno jardim e a esplanada, com acesso directo pela rua, nas traseiras do hotel (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

No piso menos dois, ligados a uma esplanada e a um pequeno jardim (por agora, enquanto as árvores não crescem, o lago e os poufs à volta são o maior atractivo) com entrada directa pela rua, funcionam o bar e o restaurante Cantina da Estrela.

[O bar, com várias cadeiras de Eames (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Do segundo, porque se presta a isso, falarei num próximo post. Mas posso já adiantar que foram pensados para atender as necessidades dos hóspedes — o buffet de pequeno-almoço é servido ali, por exemplo —, mas que boa parte da sua graça está em serem um chamariz eficaz para atrair ao local quem não está só de passagem na cidade. 

[O pequeno-almoço do Hotel da Estrela (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

E isso, para mim, é quase sempre uma mais-valia num hotel.

Rua Saraiva de Carvalho, 35, tel. 211 900 100, quartos duplos desde €159 por noite

21.6.11

a carta de verão e o novo chef do flores

[Vasco Lello, o novo chef do restaurante Flores, ao Bairro Alto (foto de divulgação); abaixo: ementa do almoço de apresentação da carta de Verão (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


Carta nova. Chef novo. Dois motivos de peso para voltar ao Flores, o pequeno mas sempre simpático restaurante do Bairro Alto Hotel, e ficar a par das novidades que chegaram com o Verão.

Vasco Lello teve cerca de dois meses para se adaptar à casa e imprimir a sua marca no menu que, a partir de hoje e durante todo o Verão, será o principal cartão de visita do restaurante.

Bastante jovem ainda, Lello teve oportunidade de passar já por alguns hotéis de peso, como o Le Méridien (onde teve por mestre o chef Eduardo Mello) ou o Pestana Palace (onde trabalhou directamente com Aimé Barroyer), o que lhe dá, à partida, um bom jogo de cintura para lidar com as particularidades de um desafio deste género — porque há diferenças num restaurante de hotel.

[O Flores em clima assumido de Verão (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

A sua cozinha é de matriz assumidamente portuguesa, com influências mediterrânicas, e isso fica claro ao passarmos os olhos pela carta que preparou para esta estação.

Num primeiro almoço de degustação, fiquei bem impressionado com o que vi e saboreei. Combinações menos óbvias, mas ainda assim consistentes e abordáveis para a maioria dos palatos; um bom equilíbrio entre os vários ingredientes, o que torna os pratos leves (detalhe importante, sobretudo no Verão); e um empratamento contemporâneo, agradável à vista e bom de comer.

Mas vamos ao prato a prato.

[A entrada: trio de terrine de foie gras, compota de cereja e gelatina de ginjinhas (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Nas entradas, seis propostas — a saber: creme de Topinambur; vieiras coradas com salada de rúcula e laranja, ficando o toque salgado por conta do presunto e Sumagre; sardinha assada com flor de sal e orégãos, num gaspacho com tomate, pepino e pimentos; queijo de cabra e figo tépidos, acompanhados por salada de três alfaces; cachaço em lascas, queijo de Nisa derretido e "Galegas"; trio de terrine de foie gras, compota de cereja e gelatina de ginjinhas. 

[O prato de peixe: bacalhau confitado  com Ras-el-hannout, papas de grão, harira, briouat (com recheio de tâmaras) e óleo de Argan (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Seguiu-se, como peixe, um bacalhau confitado  com Ras-el-hannout, papas de grão, harira, briouat (o canudinho crocante no topo, com recheio de tâmaras) e óleo de Argan. Um prato com um toque magrebino que cai muito bem e que tira o máximo partido da versatilidade do bacalhau. Sem dúvida, um "must" da nova carta.

As outras propostas no mesmo capítulo são um salongo no sauté de ostras e limão; peixe-espada com uma crosta de camarão e ervas frescas; e atum na chapa com sésamo e molho "Ponzu".

[O prato de carne: novilho enrolado com alecrim, pimenta preta, lentamente estufado sobre legumes de uma "Jardineira" (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Nas carnes, chegou-me um novilho enrolado com alecrim, pimenta preta, lentamente estufado sobre legumes de uma "Jardineira". Muito tenro e irrepreensivelmente leve.

As outras escolhas são cordoniz frita com alho, louro e vinho branco; sela de coelho braseada com os "miúdos" e perna assada e desfiada; bochechas de porco preto com tomilho sobre papas secas de milho. Nem carne, nem peixe, uma opção de risotto com espargos verdes, beringela assada e Parmesão.

[A sobremesa: bolinho de amêndoa, pêssego rosa e gelatina de "Amarguinha" (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Para rematar, quatro sobremesas a escolher entre bolinho de amêndoa, pêssego rosa e gelatina de "Amarguinha"; "famoso cocktail" de coco em bolo e ananás em creme; morangos frescos com gelado de champanhe; e, d'Além Mar, chocolate, banana e maracujá. Elegida a primeira opção, poderia facilmente ter descambado para algo pesado e indigesto, mas Lello soube transformá-la numa sinfonia de sabores e texturas subtis e perfumados (reforçado pela flor comestível).

[Um pequeno "mimo" para os convidados do primeiro almoço de degustação: biscoitos no lanche (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Bairro Alto Hotel, Pç. Luís de Camões, 2, tel. 213 408 252, almoços, entre as 12.30 e as 15.00; jantares, de dom. a qua., entre as 19.30 e as 22.30, de qui. a sáb., entre as 19.30  e as 23.30. Menus fixos a partir de €21 por pessoa

17.6.11

lost in

[A esplanada é o grande chamariz do Lost In, ao Príncipe Real, mas as salas interiores também são cheias de detalhes, como se vê na foto; abaixo: opções de menu ao almoço (fotos de divulgação)]

Achei e depois perdi-me. 

Tratando-se do Lost In, eu sei, é um trocadilho fácil. Mas eu nem sempre resisto a trocadilhos fáceis. Muito menos a observações óbvias com o que seu quê de cinematográfico. Por isso, tratando-se do Lost In, poderia também falar em Passagem para a Índia.

Bom, uma espécie de Índia. Uma Índia meets Marrocos meets Lisboa.

[Logo à chegada, vislumbra-se a vista digna de um miradouro (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Confesso-me aqui. Ainda não tinha ido ao Lost In e foi preciso a minha irmã insistir, e mandar-me um mail com o link e tudo — como quem diz, vê lá, que é mesmo giro —, para eu meter pés ao caminho.


[A clientela do Lost In mistura diversos tipos de públicos, com idades, posturas e propósitos diferentes, o que resulta numa combinação interessante (©joão miguel simões, todos os direitos )]

E nem foi preciso andar muito. O Lost In, para quem, como eu, não deu por ele, fica na D. Pedro V, a meio caminho entre o miradouro de São Pedro de Alcântara e a praça do Príncipe Real. E não é uma coisa de agora. Como loja homónima existe desde 2009; como esplanada-bar-miradouro desde 2010.

[As camas de frente para a balaustrada são as primeiras a serem ocupadas (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Chegados ao número 56, sem precisar contar, avista-se um túnel e é ai que a coisa se dá. A passagem. Não para a outra margem, mas para um mundo supostamente melhor, shianti shianti (ou seja, só sorrisos e boa onda)debruçado sobre meia Lisboa, da Liberdade à Graça.

[Cores alegres, camas de ferro, mesas de verga e lanternas dão o toque exótico ao Lost In (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Mas a vista só vem depois. Ainda no túnel, a primeira coisa que se vê é a loja de acessórios e decoração made in India. A esplanada e o bar possuem, mais à frente, uma entrada própria. É como entrar num quintal meio à socapa.

[Há quem também prefira os poufs e as mesas mais baixas (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Acontece que só muito poucos quintais se podem gabar de possuir um panorama quase tão desafogado quanto o do miradouro vizinho e os que têm, por regra, não se encontram abertos ao público.  Ganha Lisboa e ganhamos nós, locais e forasteiros.

[Pelo palco do Lost In, com o graffiti da deusa hindu como pano de fundo, passam vários animadores, de músicos a dançarinas do ventre ou ilusionistas, conforme os dias (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

A frequência do Lost In assenta precisamente nessa mescla, em doses muito equilibradas, de lisboetas e estrangeiros. À entrada, floreiras de bambus, chapéus de pano multicolores — que imediatamente associamos aos cortejos indianos —, camas de ferro forjado pintadas de vermelho-vivo, mesinhas em verga e almofadões dão o mote. 


[A clientela mais branchée prefere ficar no pátio e não enjeita as mantas quando o sol se esconde (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


Logo à entrada, noto uma separação de águas curiosa. A clientela mais jovem e freak, porventura atraída pela promessa de um Shangri-la lisboeta, prefere o despojamento das camas viradas de frente para a balaustrada, ao passo que os mais "velhos" e branchés  se distribuem, sobretudo, pelas mesas e cadeiras de ferro, tingidas de rosa, lilás e verde, e por outros recantos do pátio mais amplo, à sombra das árvores e sob a protecção do graffiti da deusa hindu que assinala o palco (a programação é devidamente anunciada no Facebook).


[No pátio, para além das mesas e cadeiras de ferro coloridas, alguns recantos mais intimistas (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


Existem três salas interiores, igualmente coloridas, divididas pelos dois andares da casa, mas estas têm mais procura no Inverno ou nas noites mais frescas. Quando o tempo o permite, é na esplanada que todos querem ficar, nem que para isso seja preciso recorrer às mantas da praxe quando o sol se vai.


[Tosta de presunto, servida com salada, e uma imperial. Fim de tarde no Lost In (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


O Lost In não chega a ser esotérico. É mais uma questão estética do que uma opção de vida. A ementa é disso prova. Ao almoço, servido à partir das 12.30, há um menu-tosta (com ou sem sopa do dia, entre €7,50 e €8) e um menu-salada (€9), além de pratos como o Hambúrguer Veggie, o Caril de Gambas e o Bacalhau no Forno. Simples e sem grandes complicações. Ao longo do dia, as tostas e as saladas mantêm-se na lista, mas também há wraps, scones, tartes (como a de alheira), ovos mexidos com farinheira, chás quentes e frios, vinhos, cerveja e alguns cocktails (não muitos). E como o espaço só fecha à meia-noite, também se janta.


A parte de restauração, assumo, não me entusiasma por ai além. A mais-valia do espaço é, parece-me, ser um bar onde também é possível comer umas coisas leves, lanchar e petiscar. Sem pretensões a mais. E nesse sentido, sim, é um achado. Ou melhor, é uma confirmação.


Rua D. Pedro V, 56, tel. 917 759 282, seg., entre as 16.00 e as 00.00, de ter. a sáb., entre as 12.00 e as 00.00

sky bar

[Do Sky Bar, no último andar do Tivoli Lisboa, a vista é esta; abaixo: daiquiri de morango e snack de frutos secos (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Pelo segundo ano consecutivo, o hotel Tivoli Lisboa, em plena Avenida da Liberdade, abre o seu terraço superior ao público e ascende de imediato a um lugar cimeiro entre as esplanadas panorâmicas mais desejadas da capital.


Na verdade, o Sky Bar do Tivoli não é bem uma esplanada. Aliás, duvido mesmo que se apresente como tal. E também não é mais um segredo, mas o facto de estar num hotel cinco estrelas e de ser um fenómeno sazonal, com um tempo de duração limitada entre Maio e Outubro, acaba por impedir a sua excessiva banalização. O que é bom, digo eu.


[O Sky Bar divide-se em dois terraços, nesta foto o inferior, com vários ambientes (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


Longe vai o tempo em que o comum dos mortais se intimidava, não sendo hóspede, a atravessar o lobby de um hotel, a chamar o elevador e a carregar no botão para ser transportado a um domínio que, por regra, estava reservado para usufruto interno. Ainda assim, há quem se acanhe ou resista à ideia.


[Colchões e narguilés, no terraço inferior (foto de divulgação)]


Pois não sabem o que perdem.


[A estrutura do Sky Bar, vista de baixo para cima (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


Não que seja o melhor bar de Lisboa. Tão pouco o conceito é inédito ou a vista muito diferente do que se vê em vários miradouros alfacinhas. Mas, tudo junto, não deixa de causar boa impressão e de ser motivo para regozijo.


[No terraço superior há até uma cama de dia (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


O bar, que vem no prolongamento de um restaurante, divide-se por dois terraços ao ar livre. O inferior é mais desafogado, com vários ambientes divididos por candeeiros de pé alto, floreiras e bambus. Os mais disputados, contudo, costumam ser os colchões e almofadões ao estilo de uma alcova árabe que, equipados de narguilés, permitem um total refastelamento para quem assim o desejar.


[O estilo é descontraído, até na "farda" das empregadas de mesa (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


No terraço superior, uma enfiada de colchões e até uma cama de dia são servidos por um dos bares de apoio e funcionam mais ao final da tarde, quando passamos no Sky para relaxar e esquecermos que lá embaixo, à hora de ponta, a avenida e todas as ruas à voltam fervilham com o trânsito.


Ali em cima não se ouve o barulho dos carros, mas sim o da música (nas noites de sexta e sábado, sobretudo, há mesmo Dj residente), e, a menos que a nossa atenção seja desviada para outros lados — também acontece, que o lugar a isso se presta —, só vamos ter olhos para o rio, o castelo, o arvoredo e para um ou outro mamarracho que não chegam, felizmente, a escangalhar o quadro. 


Na carta há snacks e bebidas várias, com destaque para os daiquiris, os mojitos e as capirinhas (num relance rápido, diria que o preço médio de um cocktail anda nos €9), mas também há, assim a fome aperte, saladas, hambúrgueres ou wraps, entre outros. Aos sábados e domingos, novidade, dizem-me que há brunch entre as 11 e as 16 horas, o que me parece uma excelente ideia (desde €17 por pessoa, com três opções à escolha). Mantém-se, mas não confirmei, o Sky Menu (€25/pax), que oferece entrada, prato principal e sobremesa.


Por mim, agrada-me ter o Sky Bar como refúgio ao final da tarde, onde (me) apetece ficar deitado a ler revistas, a ouvir música e a ver a vida passar. Mas são muitas as possibilidades e cada um que as explore como bem lhe der na gana.


Tivoli Lisboa, Av. da Liberdade, 185, tel. 213 198 934, todos os dias, entre as 17.00 e a 01.00, brunch aos sáb. e dom., entre as 11.00 e as 16.00

13.6.11

cervejaria da esquina

[A Cervejaria da Esquina, do chef Vítor Sobral (abaixo), serve o que é suposto, mas vai além no conceito e na decoração (fotos de divulgação)]

Por conta deste blog tem-me acontecido uma coisa engraçada, mas até certo ponto prevista, que é, de quando em vez, pernoitar num hotel de Lisboa e arredores. Por regra, não temos (ainda) o hábito de o fazer na cidade onde vivemos, a menos que a isso sejamos forçados por circunstâncias algo esdrúxulas, mas é uma experiência bastante divertida e reveladora. Recomendo.

[Fica mesmo numa esquina de Campo de Ourique, na casa da antiga Bonina (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Mas nem é esse o assunto deste post. O facto tem apenas relevância, no caso, para explicar que a reboque de uma noite passada num hotel entre a Estrela e Campo de Ourique, dei por mim a ter o pretexto que me faltava para ir, finalmente, conhecer a Cervejaria da Esquina do chef Vítor Sobral.

[Tons claros, design simples, mas agradável e confortável, assinado por Paula Moura (foto de divulgação)]

Gosto do bairro alfacinha de Campo de Ourique e não é de hoje. E Vítor Sobral, pelos vistos, é da mesma opinião. Depois do êxito da Tasca da Esquina, aberta há dois anos certos, o conhecido chef voltou a escolher o local, mas desta feita na rua Correia Teles, para inaugurar, em Abril, a Cervejaria da Esquina.

[Além dos aquários, a Cervejaria da Esquina não abdicou de outros artefactos próprios, mas deu-lhes uma nova imagem (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)[

Muito solicitado, Sobral fez algumas incursões na alta gastronomia que não correram bem. Não porque a sua cozinha não possa estar à altura do desafio, mas porque o mercado é restrito em Portugal para esse tipo de apostas e a sua viabilidade, do ponto de vista da rentabilidade, não são, como sabemos, favas contadas.

[Os potes com temperos e especiarias estão à vista e ajudam a criar "ambiente" (foto de divulgação)]

Por isso mesmo, e sem pruridos, Sobral virou-se nos últimos tempos para espaços mais pequenos, mais comerciais e assumidamente com um conceito clássico de restauração portuguesa. Foi assim com a tasca, tem sido assim com a cervejaria e será assim, porventura, como o mesmo já admitiu, com uma futura taberna ou casa de pasto.

[A maioria do marisco é nacional e vendido ao quilo (foto de divulgação)]

A fórmula parece simples e certeira, mas, como se lê numa das paredes da sua nova casa "ter sorte dá muito trabalho". 

[O couvert e um dos emblemas da casa, a Esquininha (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Cheguei para jantar sem reserva, mas não tive problema em encontrar uma mesa, apesar da casa estar bem composta e de ser quase constante o entra e sai. Numa cervejaria, o português espera encontrar bom marisco, mas também bifes. Na cervejaria da Esquina, quem ali vai espera encontrar isso, mas não só.

[O creme de marisco (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

A diferença começa logo na decoração, simples mas actual, com predominância da madeira clara, assinada por Paula Moura, que soube ainda assim integrar elementos tradicionais das cervejarias como os aquários. A ementa aposta forte, claro, nos vários tipos de marisco, a maioria dos quais proveniente da nossa costa, vendidos ao quilo (salvo algumas excepções, como o camarão e as ostras). Não esquece, porém, "clássicos" como o Prego ou o Bife à Casa e permite-se, felizmente, ir mais além ao sugerir uma "cozinha de tacho" que, através de saladas, arrozes, cataplanas, massas, açordas e até caris, acrescenta uma nota gourmet, e de maior sofisticação, à proposta. Afinal,  esta é uma cervejaria, mas não é uma cervejaria qualquer.

[Os pregos chegam assim à mesa, com mostarda de Dijon à parte (foto de divulgação)]

Mas, nestas coisas, nada como nos sentarmos à mesa para ver como se passa da teoria à prática. Dividida a casa em duas salas, acabei por preferir uma mesa na zona de fumadores, embora não fume, que me pareceu mais simpática e recatada junto às cataplanas e aos potes de especiarias. E foi o melhor que fiz, já que durante todo o jantar ninguém me incomodou com o fumo.

Adiante.

[O prego de bife de atum, rosado no interior como deve (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Agrada-me numa cervejaria que tanto se possa gastar até €10, se me apetecer um simples prego no pão e uma cerveja, como pagar uma conta choruda já na ordem dos três dígitos. Digamos, como ponto de referência, que o preço médio de uma refeição aqui rondará os €25-€30 por pessoa, sendo que existem, para lá da carta, duas opções de degustação em que se fica mais ou menos nas mãos do chef (e paga-se, por 3 a 5 pratos, algo entre os €30 e €60, sem bebidas).

[O Caril de camarão, à chegada (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Não ia com ideia de comer marisco, mas olhei a carta do dia, com ostras a €2,90/unid. e lagostins a €126/kg nos extremos da tabela. Pelo meio, amêijoas, lagosta, sapateira, lingueirão, búzios, canilhas, percebes, burriés, camarão tigre e o mais que havia no mercado.

[O caril de camarão já no prato (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Apetecia-me cerveja, mas consultei a lista de vinhos — nada mais fácil quando nos serve de individual —, com opção de espumantes, rosés, tintos, brancos e verdes. Garrafeira com preços razoáveis e uma boa opção de vinhos a copo, entre os €3 (um rosé) e os €10 (um espumante). Aderi ao conceito da "Esquininha", a imperial servida num copo redondo de apenas 15 cl, vendida a €1. Feitas as contas, no final, se calhar bebe-se mais, mas, como no Brasil, faz com que a cerveja não tenha tempo de "amornar" e perder a força.

[A tarte de creme leite (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Da secção "Para começar", deixei ficar o pão, servido numa cesta de borracha, e o prato de paio (os enchidos são outra aposta da casa). Seguiu-se, nos "Clássicos", um Creme de Marisco (€3,60) e um Prego de bife de Atum (€7,60). Sobre o creme, saiu há uns tempos um artigo do Carlos Maribona em que este o descrevia como "bom de sabor, mas demasiado espesso". Sei que Sobral o leu (como todos lêem o que escreve o crítico gastronómico espanhol) e talvez por isso, ou não, o creme chegou-me com uma consistência aveludada, igualmente bom de sabor. Já o atum, muito bom, quase a dispensar a mostarda de Dijon, suculento e rosado no interior. Um dos melhores pregos que já comi.

[Um remate perfeito para um jantar numa cervejaria com "cozinha de tacho" (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Poderia ter ficado por ali, e gasto menos. Mas queria provar mais coisas. Pedi, na secção dos "Caris", um de camarão (€17,50), que me chegou à mesa num tacho com arroz Basmati à parte. Muito bem executado, com uma nota acidulada bem-vinda dada pela erva-limão, que lhe deu mais do que apenas aroma.

As doses satisfazem plenamente, mas, ponto a favor, não empanturram. Por isso, consegui ainda ter espaço para a sobremesa. E eu queria mesmo provar as sobremesas, por conta de ter ouvido imensa gente a elogiar este capítulo na Cervejaria da Esquina.

Ao que parece — esqueci-me de confirmar — são executadas por Teresa Garcia e já deixam meia Lisboa aguada com a sua tarte de creme leite ou crocante de amêndoa. Há mais coisas, como gelado de cerveja ou queijo com marmelada, mas eu não resisti à tarte (€3,50), que me chegou, para rematar o respasto, com um café servido num mini púcaro esmaltado.

Paguei um total de €37,50 e saí regalado. Porque o espaço e o conceito cumprem perfeitamente aquilo a que se propõem. E voltarei mais vezes. Com ou sem o pretexto de estar de passagem para os lados de Campo de Ourique.


Rua Correia Teles, 56, tel. 213 874 644, de ter. a dom., almoços entre as 12.30 e as 15.30, jantares entre as 19.30 e as 23.30
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