7.6.11

o melhor bolo de chocolate do mundo vs. o melhor pão-de-ló do universo

[Quem é melhor: o bolo de chocolate (à esq.) ou o pão-de-ló (à dir.)? (fotos de divulgação)]

Presunção e água benta...

O ditado é antigo, mas, como me disse alguém dias atrás, nesta coisa de superlativos nem sempre temos de levar pelo lado da arrogância e do umbiguismo. Pode ser uma demonstração saudável, e já agora bem-humorada, de confiança naquilo que se está a vender.

Foi, e é, parece-me, o caso de O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo. E será também agora, estou certo, o caso de O Melhor Pão-de-ló do Universo.

O primeiro é um exemplo de sucesso luso incontestável, que galgou fronteiras, estando já, como marca registada, em São Paulo, Rio de Janeiro, Madrid e Nova Iorque (se não me falha nenhuma). Nada mau para quem começou, há uns anos, numa pequena loja do bairro de Campo de Ourique.

O segundo é mais recente e, ou muito me engano, ainda há muito boa gente que não deu por ele. É, assumidamente, uma provocação bem-disposta ao Melhor Bolo de Chocolate; mas não tem nada de leviano ou de inconsequente, pois num país com tantos — e bons — pão-de-lós, por certo que o Grupo Lágrimas Hotels não iria cair no erro de associar o seu nome a um produto em que não estivesse 100% confiante.

Mas, e quem é melhor, o bolo de chocolate ou o pão-de-ló?

Para o tira-teimas ser mais justo, esclareço desde já que O Melhor Pão-de-ló do Universo existe na versão pura (só com ovos) ou de chocolate, mas eu optei pela última para ficar com uma ideia mais aproximada.

[A fatia de O Melhor Bolo de Chocolate que me chegou à mesa não estava tão cremosa como esta (foto de divulgação)]

Abro as hostilidades com o bolo de chocolate. Hoje, além dos pontos de venda própria (em Campo de Ourique e agora também num dos novos quiosques da Avenida da Liberdade, como contei aqui), são vários os locais do país autorizados a comercializá-lo. Foi na avenida, mais à mão de semear, que voltei a saboreá-lo. Chegou-me à mesa numa fatia magra e sem calda de chocolate por cima, para além da cobertura. Como já não é segredo para ninguém, esta receita alterna camadas de mousse de chocolate com outras de merengue de chocolate, o que o torna menos compacto, e mais leve e untuoso. 

[A primeira garfada já mostra bem como a mousse de chocolate alterna com o merengue de chocolate (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Ainda que cremoso, achei-o mais seco do que me lembrava... Aliás, a última vez que comera o Melhor Bolo de Chocolate remonta a uma passagem por São Paulo, onde, quem sabe movido pela saudade, me atraquei a uma fatia que, na altura, me soube muito melhor. Detalhe, que talvez não seja um mero pormenor: no Brasil, para além da receita tradicional (com 53% de cacau), comercializam também uma versão meio-amarga (com 70% de cacau).

[A fatia de o Melhor Pão-de-ló chegou-me assim à mesa (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Respirei fundo, antes de passar à segunda prova. Para aliviar a culpa das calorias ingeridas, fiz a pé o percurso até um dos pontos de venda de o Melhor Pão-de-ló — a saber, são três: Terreiro do Paço, Cantina da Estrela e Ca Fé, todos explorados pelo Grupo Lágrimas. Como me sentei na esplanada do Terreiro do Paço, estranhei não ver na lista o pão-de-ló, mas foi só perguntar pelo dito e não tardaram (muito) a trazer-me uma generosa fatia, polvilhada ao de leve com açúcar em pó.

[À primeira garfada, o seu interior revelou-se mal cozido no ponto certo (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Aspecto irregular, massa fofa e muito leve, como convém, que, à primeira garfada, revelou um interior esponjoso e pegajoso, mas com a consistência adequada — mal cozido e não cru. O creme de chocolate (na versão tradicional é de ovo) vem q.b., só para dar um toque, sem ser demasiado intrusivo, o que acabaria por desvirtuar a ideia. Ao fim, e ao cabo, é um pão-de-ló e não outra coisa. Achei francamente agradável, até por poder ser servido ligeiramente fresco.

Quem levou a melhor? Acho que vou deixar essa decisão para quem a quiser, ou for capaz de a tomar com maior propriedade. Direi apenas que, quem desejar m-e-s-m-o um bolo a saber a chocolate, o primeiro leva óbvia vantagem, mas achei o segundo, por incrível que pareça, menos seco e, não tão surpreendente assim, mais leve. A optar por um ou por outro, acho que, nos próximos tempos, me inclinarei mais a repetir o pão-de-ló, a quem aponto apenas um contra: a fatia sai por €5, enquanto a do Melhor Bolo de Chocolate fica pela metade. Não se justifica uma diferença tão grande de preço.

Pontos de venda de O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo aqui (pode também encomendar um bolo inteiro) 
Pontos de venda de O Melhor Pão-de-ló do Universo aqui (pode também encomendar um bolo inteiro, a €22)

5.6.11

top 15 atracções de lisboa pelo tripadvisor

[O Oceanário,inaugurado durante a Expo 98, mantém-se imbatível no topo das preferências de quem visita Lisboa (fotos D.R.)]


Há sempre quem questione os métodos do TripAdvisor, mas, tratado-se do maior site de viagens do mundo, não há como ignorá-lo enquanto barómetro de referência.

No que diz respeito à cidade de Lisboa, e baseado na votação emitida por milhões de visitantes, o site tornou pública a lista das 156 maiores atracções da capital pela sua ordem de popularidade.

Não vou enumerar as 156 (pode espreitá-las aqui), mas sim destacar o top 15 segundo o TripAdvisor:

1. Oceanário
[Todos os direitos reservados]
2. Fundação Calouste Gulbenkian
[Todos os direitos reservados]
3. Eléctrico nº28
[Todos os direitos reservados]
4. Mosteiro dos Jerónimos
[Todos os direitos reservados]
5. Bairro de Belém
[Torre de Belém, todos os direitos reservados]
E ainda:
6. Cascais
7. Igreja de São Vicente de Fora
8. Bairro de Alfama
9. Castelo de São Jorge
10. Cristo-Rei
11. Bairro Alto
12. Elevador de Santa Justa
13. Padrão dos Descobrimentos
14. Sé Catedral
15. Parque das Nações

3.6.11

a nova carta do bocca

[A cozinha à vista, como se fosse um quadro pendurado, na sala, aqui mostrada em duas perspectivas diferentes (fotos de divulgação)]


São vários os chefs e restaurantes de Lisboa presentes nas redes sociais, sobretudo no Facebook, mas são bem menos aqueles que aprenderam a tirar todo o partido do seu enorme potencial para promoverem e darem a conhecer o seu trabalho a um público maior.

Entre os que o fazem já muito bem, o restaurante Bocca, sem margem de dúvida, aparece disparado, sendo, inclusive, presença diária e quase sempre pertinente no Twitter.

A prová-lo, aquele que é um dos restaurantes de alta gastronomia mais premiados da capital — acabou de levar mais um Garfo de Ouro, atribuído pelo guia Boa Cama, Boa Mesa 2011 —, acaba de lançar a sua nova carta e, para aguçar o apetite, disponibilizou online as fotos de vários pratos, sem estar à espera dos meios de comunicação. Boa jogada de antecipação.

Ainda não provei — conto fazê-lo um dia destes e logo contarei aqui as minhas impressões —, mas, para já, e porque os olhos também comem, ficam algumas sugestões que me deixaram curioso:

[Filete de sardinha marinada, uma salada algarvia com a sua sopa fria e “carvão” (foto de divulgação)]
[Tártaro de borrego com sorbet de hortelã, puré de gema de ovo a 65ºC e folha de arroz, ervas e flores (foto de divulgação)]
[Salmonete salteado e cavala marinada, raviolis de alho francês e boletos sobre um caldo de caldeirada e ar de citronela (foto de divulgação)]
[Rolo de atum e pato fumado com tártaro de carapau, gengibre e uvas, ovas de peixe voador e falsa maionese de cebola roxa (foto de divulgação)]
[Salmão curado com ervas, numa vichyssoise de maçã e seu sorbet, maçã caramelizada (foto de divulgação)]

De salientar ainda que, para além do menu à la carte e dos menus de degustação (entre €52 e €43, mais €20 para as bebidas), o Bocca possui durante a semana, num registo mais acessível e informal, menus executivos aos almoços (entre €21 e €27); é também, para mim sempre digno de nota, um dos restaurantes portugueses com mais vinhos a copo.

Rua Rodrigo da Fonseca, 87-D, tel. 213 808 383, almoços de ter. a sex., entre as 12.30 e as 14.30, e sáb., entre as 13.00 e as 15.00; jantares, de ter. a sex., entre as 19.30 e as 23.00, e sáb., entre as 19.30 e as 23.00

1.6.11

sushicafé avenida

[Uma das duas salas de refeições, mais resguardada dos olhares de quem passa (fotos de divulgação)]

Nem de propósito. Eis-me de volta à rua Barata Salgueiro, na porta ao lado do Guilty by Olivier, tema do post anterior.

Há uma razão de ser. Na verdade, há até mais do que uma, mas fiquemos por aquela que pesou mais na minha decisão: o factor novidade. A última incursão da rede SushiCafé abriu as portas em finais de Abril, perto da Cinemateca, e começou logo a chamar sobre si as atenções pelo projecto arquitectónico.

Em dois dias, cometo o mesmo erro. Chego pouco antes da uma da tarde, crente de que num restaurante com capacidade para até 80 pessoas, e num dia da semana, não vou precisar de reserva. Erro crasso. O SushiCafé Avenida ainda está meio vazio (meio cheio?), mas a hostess — decididamente, a moda tardou a chegar, mas agora é contá-las... — não perdeu tempo a trazer-me à terra: tudo reservado nas três salas, lugares, por enquanto, só mesmo ao balcão, no sushibar. Bem feito para não subestimar a adesão dos lisboetas a modismos.

Mas será este novo SushiCafé um modismo? É, sem dúvida, um lugar da moda, mas, ao contrário do vizinho do lado, parece ter outros argumentos de peso para justificar o seu sucesso imediato que não seja apenas o facto de ser giro e de ter gente gira.

[Logo à entrada, aberto para a rua, o bar (à esq.) e parte dos lugares sentados (à dir.) que vêm no prolongamento do sushibar (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Para começar, o layout está bem trabalhado, a brincar com o branco, o dourado, mas também com as formas, ora desconstruídas, ora encaixadas, criando separadores modulares que conseguem, no mesmo espaço, dar a ilusão de quatro ambientes distintos. Não é novo, mas resulta e faz um brilharete.

[Zona de transição entre o sushibar e as salas de refeições mais recuadas e intimistas (foto de divulgação)]

De trás para a frente, temos a sala japonesa, em tons de dourado e castanho, seguida de uma outra sala de refeições, predominantemente branca, que, já num corredor, conta ainda com algumas mesas ao estilo de um dinner,  com bancos corridos dourados, até chegarmos ao balcão do sushibar, com vários sushimen em acção, onde voltamos ao branco. O bar, em frente, esse é dourado.

[O sushibar (foto de divulgação)]

A atmosfera descontraída, mas badalada, deste SushiCafé lembrou-me muito os japoneses que encontramos no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro. Em rigor, não se trata de um japonês puro e duro, no sentido mais formal, pois a ementa, criada pelo chef Daniel Rente, faz incursões pela cozinha molecular, joga com as diferentes texturas dos alimentos, mas tem praticamente tudo que se espera encontrar num bom japonês, mais as novidades (como a secção temakis) e coisas pouco habituais entre nós como o Guindara Goma (bacalhau de pele negra com molho de sésamo) ou o Buta Shoga (barriga de porco cozinhada a baixa temperatura).

[A ementa pensada para os almoços, com três opções de menus (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Instalado ao balcão — e depressa me apercebi do privilégio, pois não foram poucos os que chegaram depois e nem já ai tiveram lugar —, hesitei entre pedir à la carte ou escolher um dos três menus disponíveis para o almoço (€16,50, €19,50 e €21,50, sempre três pratos com direito a chá ou a outra bebida de pressão). A preguiça falou mais alto e acabei por me decidir pelo menu do meio, o Omakase Sake Teriyaki; para beber, um chá verde gelado.

[primeiro prato, Misoshiru com um agrado do chef ao lado (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Demorei mais para pedir do que era suposto, e recomendável, mas na hora de começarem a servir à mesa (ao balcão, no caso), a coisa já correu melhor e célere q.b. Primeiro veio o Misoshiru. Toda a gente já comeu o caldo de miso ou missô (pasta obtida a partir da fermentação de vários ingredientes como arroz e cevada), cebolinho, sésamo, wakame (alga), tófu e pó de shitase, mas este estava muito feito. Ao lado, um mimo do chef, uma carne em molho agridoce cujo nome me esqueci de anotar.

[Bolsas Orientais (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Seguiram-se três Bolsas Orientais sobre uma pedra de basalto.  No fundo, envelopes ou saquinhos feitos em papel de arroz recheados depois com rúcula, manga, inari (tófu frito) e camarão. Uma combinação certeira, que me conquistou pela frescura.

[Sake Teriyaki (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Para encerrar com chave de ouro, o Sake Teriyaki, um lombo de salmão teriyaki (marinado e depois grelhado na brasa) muito saboroso, escondido sob um novelo de batata doce — uma capa muito fina e estaladiça — enfeitado com legumes. Quase dispensava a tigela de arroz que veio como acompanhamento.

[A acompanhar o salmão, uma tigela de arroz com sementes (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Saciado, dispensei o café e a sobremesa, tendo pago no final €21 (pedi uma água extra ao menu). E, mais importante, sai satisfeito e agradado pela qualidade da comida, pela frescura dos ingredientes e pelo conceito. Tanto que fiquei seriamente tentado a experimentar as suas SushiBoxes, as marmitas com vários tipos de combinados que se podem encomendar no serviço de take-away.

Rua Barata Salgueiro, 28, tel. 211 928 158, almoços, de seg. a sáb., entre as 11.00 e as 16.00; jantares, de seg. a qui. entre as 19.00 e a 01.00, sex. e sáb. entre as 19.00 e as 02.00 

31.5.11

guilty by olivier

[Aberto para a rua Barata Salgueiro, o Guilty by Olivier têm em primeiro plano um bar e algumas mesas que tanto servem para refeições como para fazer uma happy hour (foto de divulgação)]

Há quem siga Olivier Costa para onde quer que ele vá, seguros de que tudo em que ele se mete está fadado a cair bem, a ser falado e a ter sucesso. Há também quem não o suporte e não o leve a sério como chef, preferindo, sem disfarçar o desdém, vê-lo como um homem de negócios, como se isso fosse o pior dos pecados num restaurateur.

Mas Olivier, um provocateur assumido, não faz o perfil de vítima inocente da maledicência alheia. Primeiro porque, goste-se ou não do género, soma e segue, estando os seus restaurantes entre os mais influentes da capital. Segundo porque ele não resiste a espicaçar a concorrência e os seus inúmeros detractores, proferindo, ou melhor, disparando frases do tipo: "Quando ando de Ferrari ficam todos lixados. Eles não percebem como é que eu ganho dinheiro e depois pensam que faço negócio de armas para Angola e o restaurante é apenas uma fachada" (in Rotas & Destinos, Agosto de 2010).

[Na decoração predominam os tons castanhos, as peles de vaca, os sofás de couro, mas também os grandes fornos a lenha e uma parede forrada a madeira aproveitada das caixas de vinhos (foto de divulgação)]

A nova aventura empresarial de Olivier demorou mais do que era suposto — chegou a ser anunciada, ainda sob o nome provisório de Olive Oil, para o final do Verão passado, mas acabou por abrir já só este ano, em Abril —, mas, sim, tudo aponta para que estejamos perante outro retumbante sucesso de público (de crítica é outra história).

Ainda sem esplanada na calçada, mas com as portas escancaradas para a Barata Salgueiro, à Avenida da Liberdade, o Guilty by Olivier não passa despercebido. Cheguei, sem reserva, um pouco antes das 20.30 e, numa terça à noite, a hostess (Helga Barroso, uma cara conhecida pela sua ligação a outros projectos mais ou menos temporários) indicou-me que todas as mesas estavam já reservadas, mas que poderia sentar-me ao balcão.

[Mais uma perspectiva da sala mais recuada, a partir do bar (foto de divulgação)]

Como estava sozinho não me importei (muito). Afinal, o balcão arredondado, cercado por bancos de pé alto com assento em pele de vaca, funciona como um ponto intermédio entre a entrada e a sala, proporcionando um posto de observação privilegiado.

A sala, em tons de castanho, é escurinha e funda, com uma das paredes revestida a madeira aproveitada das caixas de vinho, sofás de couro, tapetes de pele de vaca no chão e dois enormes fornos a lenha, importados de Itália, onde se assam as pizzas.

Ao contrário dos outros restaurantes de Olivier, este Guilty é suposto ser uma pizzaria e hamburgueria, onde também se servem massas e saladas, com estilo, mas bem mais em conta. Uma primeira consulta da carta confirmou-me o que já suspeitava: tratando-se de Olivier, o "mais em conta" é relativo. Mas, tudo bem, ainda assim preços razoáveis com entradas entre €3 e €8 (há um prato mediterrânico a €15, mas dá para duas pessoas), saladas entre €10 e €16, massas entre €13 e €17, hambúrgueres (200gr picanha Black Angus, importada dos EUA) entre €16 e €22, pizzas entre €11 e €19 (podem ser perfeitamente partilhadas) e, por fim, sobremesas entre €3 e €9.

[Rolinhos Guilty, a entrada de assinatura, servidos com rúcula (foto de divulgação)]

Fiquei tentado a escolher uma pizza — reparei que todas, e são 12 opções, levam uma selecção especial de queijos o que, por mais que seja uma aposta da casa, não sei se foi bem pensado tendo em conta que MUITA gente não aprecia queijo... Acabei por escolher como entrada um rolinho Guilty (são pedidos à unidade, €5,50/cada), que me chegou no prato acompanhado por rúcula e salpicado por vinagre balsâmico. Feito com massa da pizza, é recheado com a tal selecção de queijos, presunto e pasta de trufa preta. Como aperitivo é agradável.

Para beber, hesitei entre uma cerveja e vinho. Decidi-me por um copo de tinto da casa. A partir das 21, a sala começou a encher e o balcão do bar ficou sem lugares vagos. A clientela, que vem sobretudo aos pares, é uma mistura de novos e não tão novos assim, de gente-que-veio-tal-como-estava e de  gente-que-se-produziu-para-a-ocasião, de locais e forasteiros. Sei que uma das pretensões de Olivier com este Guilty foi preencher o vazio na Avenida deixado pela partida do Luca [Manissero], mas, até ver, e mesmo tendo investido mais no décor e estando, porventura, a facturar mais ainda, o ambiente e a clientela não são, pareceu-me, os mesmos — relatos fidedignos asseguram-me, porém, que, na sua vertente de bar e ao som de um Dj residente, o espaço é do mais animado que já se viu alguma vez por estas bandas nos últimos tempos.

[Hambúrguer Guilty, entre outras quatro opções (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Como prato, opto pelo hambúrguer Guilty (€19), servido em pão aberto com cebola confitada, queijo Cheddar, bacon e ovo estrelado. No prato vem ainda uma tigela de batatas fritas. A carne pode ser Premium, como frisa Olivier, mas dentro da proposta de hamgúrgueres gourmet já comi melhor. Bem melhor. E porque é raro, hoje em dia, comer batatas fritas, quando abro a excepção, gosto que sejam excepcionais — e há batatas fritas excepcionais — e estas eram tão-só razoáveis. 

Dispensei a sobremesa — pelo menos duas variedades de pizzas doces, mais umas quatro ou cinco sugestões, incluindo fruta e sorvetes — e pedi um café. Serviço rápido. Paguei €30,50, sendo que pelo copo de vinho tinto da casa, normalíssimo, me cobraram €5. Um exagero.

É possível comer mais barato no Guilty by Olivier, mas só com muita contenção se sairá de lá a pagar menos do que €20-€25 por pessoa. Não é nada de outro mundo, mas por esse preço, em Lisboa, ainda é possível comer e beber melhor (inclusive pizzas). Mas, as pessoas, parece-me, nunca vão a um restaurante do Olivier apenas pela comida. Ou vão?

Rua Barata Salgueiro, 28, tel. 21 191 3590, almoços de seg. a dom., entre as 12.00 e as 15.00; jantares de dom. a qui., entre as 19.00 e as 01.00; jantares de sex. e sáb., entre as 19.00 e as 02.00

27.5.11

fora de portas: fortaleza do guincho, parte 3 | o restaurante

[Ancorada junto ao mar, pairando sobre a praia do Guincho, a Fortaleza reservou para o seu restaurante estrelado algumas das melhores vistas (fotos de divulgação)]

O prometido é devido.

Apresentados os chefs e explicado o conceito do restaurante da Fortaleza do Guincho no post anterior, é chegada a hora de passar à mesa.

Antes, porém, um mea culpa. Era minha intenção ter aqui as fotos de todos os pratos que degustei naquela noite, num jantar em que perdi a conta às horas, mas acabei por não fazê-lo por duas razões: a primeira é que, na expectativa de chegar e instalar-me, comecei por me esquecer de puxar pela máquina; a segunda é que, quando me lembrei, resolvi deixá-la quieta onde estava. Por uma vez, decidi concentrar-me na comida e aproveitar a companhia.

Há quem prefira o restaurante ao almoço, porque é então que se tira o máximo proveito da vista sobre o mar, servida de bandeja. Outros preferem realçar a carga quase teatral que se sente ao jantar, altura em que as luzes e o décor contribuem para a ilusão, quase perfeita, de estarmos num palco sobre o Atlântico.

Não tiro a razão nem a uns nem a outros. Da mesma forma que reconheço pertinência em quem já acha ser chegado o momento de trocar a decoração pesada, e talvez excessivamente datada, por algo que mantenha a classe — era só o que faltava é que todos os restaurantes (e hotéis) tivessem de sucumbir à ditadura do "design" e do "minimal" —, mas que seja mais uptodate.

[Parece ou não uma mesa colocada à boca de cena? (foto de divulgação)]

E chega de preâmbulos.

Não sei se a mesa que me coube em sorte era exactamente a que se vê na foto superior, mas se não foi esta, foi outra igualzinha. Um privilégio que não me passou ao lado. Nem a mim, nem à minha companhia — porque este é o tipo de experiência que sabe tão melhor quando partilhada.

[Dia ou noite? Almoço ou jantar? A dúvida é pertinente... (©paulo barata)]

Numa altura em que tanto se fala, e se sente, a crise, confesso que temi a perspectiva sempre embaraçosa de sermos os únicos na sala — jamais esquecerei o desconforto de um almoço com a sala vazia, há muitos anos, no Tavares... —, mas não. Num dia da semana, o restaurante não estava cheio, mas boa parte das mesas estava ocupada.

[Um serviço requintado que se justifica plenamente num restaurante deste nível (©paulo barata)]

Bem melhor assim.

Com anos de prática, e uma estrela Michelin para honrar, o serviço de sala está afinado. E sim, este é um restaurante onde se faz gala em prestar um serviço refinado (e presente na medida justa), com os empregados de mesa a terem na ponta da língua os ingredientes que vão em cada prato e a saberem também aconselhar. Há restaurantes de muitos tipos, para diferentes ocasiões e propósitos. Neste, justifica-se plenamente um serviço mais requintado.

[Mestre e pupilo, Westermann e Farges; o primeiro, com três estrelas Michelin, é o consultor gastronómico, o segundo, com uma estrela Michelin, é o chef executivo (©paulo barata)]

E, a menos que se saiba muito bem ao que se vem — e há quem saiba, claro, sobretudo os clientes repetentes e amantes do repertório do chef Westermann —, é bom ter quem nos esclareça. Vinhos e outras bebidas à parte, na carta as entradas custam a partir de €25, os pratos desde €30 e as sobremesas começam nos €14. Mais vantajoso, e interessante para quem não é um habitué atrever-me-ia a acrescentar, é optar pelo menu da estação (quatro por ano, portanto) ou de degustação, entre €50 e €70 por pessoa (bebidas não incluídas, relembro). 

Barato não é, mas é um valor justo.

Optámos pelo menu de degustação, harmonizado com vinhos diferentes a copo para cada prato.

[Vincent Farges, à dir., em plena acção durante um evento gastronómico recente na Fortaleza do Guincho (foto D.R.)]

A abrir, como amuse-bouche, um shot de cenoura, vegetais tenros — muito frescos, que Vincent Farges, como expliquei anteriormente, faz questão de importar de hortas locais — e geleia de galinha. Não o encontrei, mais tarde, em nenhuma das cartas, o que só prova que Farges se permite variar nestas espécies de pré-entradas.

Continuámos no espumante, que acompanhou muito bem uma entrada que já se tornou um prato de assinatura de Farges: vieiras marinadas com limão-caviar, tártaro de legumes crocantes com lima e brioche com funcho.

Mudámos para um branco, ideal para o salmonete assado condimentado com os fígados e limão confit, acompanhado por um refogado de legumes com manjericão e lascas de alho. Porventura, foi o prato de que mais gostei nessa noite, apesar de haver quem não aprecie o gosto mais acentuado deste peixe.

[A frescura dos ingredientes é crucial, dos legumes e vegetais aos peixes, para o resultado final desejado por Farges [foto D.R.)]

Já não sou tão fã de borrego, ainda que reconheça a subtileza da versão que Farges nos apresentou nessa noite. Borrego de leite assado, streussel de funcho, favas e molho do assado por cima. E um tinto encorpado, claro.

Nas mignardises, que antecedem a sobremesa propriamente dita, dois deliciosos e refrescantes sorvetes: canela com frutos vermelhos e manga.

E chegou a sobremesa, escudada por um Porto, composta por morangos algarvios macerados com manjericão e vinagre balsâmico, cremoso e telhas estaladiças, sorvete de lima-manjericão e molho de morango. Um remate perfeito que me lembrou o desabafo de uma crítica gastronómica: "estou farta de sobremesas que, no final, nos deixam com desejo de um bom chocolate!". Pois não foi o caso. Esta é uma sobremesa que inclui ervas aromáticas e até vinagre balsâmico, mas tem aparência, e gosto, de doce.

Se gostei de tudo? Gostei mais de umas coisas, de outras menos. Mas isso é normal. O que interessa ressaltar é que, chegados a este patamar de exigência — e por mais que o paladar seja uma coisa subjectiva, que não sejamos peritos em tempos de cozedura e não dominemos as bases da cozinha francesa —, para se cumprir a expectativa, tem de haver um rasgo, uma identidade, um traço que faça a diferença.

E isso a cozinha do Guincho, praticada por Farges, tem. Podemos gostar mais ou menos de determinada coisa, mas há sempre ali qualquer coisa de genial. Com a vantagem de que se tem vindo a tornar uma cozinha muito mais abordável — a simplicidade não tem nada de básico — e que é um prazer redobrado ver cada vez mais ingredientes portugueses a serem trabalhados a alto nível.

[Criação de Vincent Farges para o evento Peixe em Lisboa, onde provou que uma cozinha com uma estrela Michelin também pode, e deve, ser capaz de criar alternativas mais em conta (©fabrice demoulin)]

Para terminar, uma nota para aqueles que nunca foram à Fortaleza do Guincho e acham que este meu post só veio confirmar o quão elitista o lugar é. Da mesma maneira que se incentiva quem passa a entrar e a ver o lugar — que é afinal um património histórico antes de ser um hotel e um restaurante —, também houve o cuidado de pensar numa ementa mais informal, e mais em conta, para servir no bar e esplanada.

Não é preciso ser hóspede para desfrutar do pequeno-almoço (que custa €15) ou de um chá com scones (que custa €7,50). Nem o restaurante é a única maneira de chegar à cozinha de Farges (sanduíches entre €6 e €16, saladas entre €7 e €15, massas e sopas entre €6 e €15, além de sobremesas entre €4 e €7,50).

Estrada do Guincho, Cascais, tel. 214 870 491, todos os dias, almoços entre as 12.30 e as 15.30 e jantares entre 19.30 e as 22.30
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