1.6.11

sushicafé avenida

[Uma das duas salas de refeições, mais resguardada dos olhares de quem passa (fotos de divulgação)]

Nem de propósito. Eis-me de volta à rua Barata Salgueiro, na porta ao lado do Guilty by Olivier, tema do post anterior.

Há uma razão de ser. Na verdade, há até mais do que uma, mas fiquemos por aquela que pesou mais na minha decisão: o factor novidade. A última incursão da rede SushiCafé abriu as portas em finais de Abril, perto da Cinemateca, e começou logo a chamar sobre si as atenções pelo projecto arquitectónico.

Em dois dias, cometo o mesmo erro. Chego pouco antes da uma da tarde, crente de que num restaurante com capacidade para até 80 pessoas, e num dia da semana, não vou precisar de reserva. Erro crasso. O SushiCafé Avenida ainda está meio vazio (meio cheio?), mas a hostess — decididamente, a moda tardou a chegar, mas agora é contá-las... — não perdeu tempo a trazer-me à terra: tudo reservado nas três salas, lugares, por enquanto, só mesmo ao balcão, no sushibar. Bem feito para não subestimar a adesão dos lisboetas a modismos.

Mas será este novo SushiCafé um modismo? É, sem dúvida, um lugar da moda, mas, ao contrário do vizinho do lado, parece ter outros argumentos de peso para justificar o seu sucesso imediato que não seja apenas o facto de ser giro e de ter gente gira.

[Logo à entrada, aberto para a rua, o bar (à esq.) e parte dos lugares sentados (à dir.) que vêm no prolongamento do sushibar (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Para começar, o layout está bem trabalhado, a brincar com o branco, o dourado, mas também com as formas, ora desconstruídas, ora encaixadas, criando separadores modulares que conseguem, no mesmo espaço, dar a ilusão de quatro ambientes distintos. Não é novo, mas resulta e faz um brilharete.

[Zona de transição entre o sushibar e as salas de refeições mais recuadas e intimistas (foto de divulgação)]

De trás para a frente, temos a sala japonesa, em tons de dourado e castanho, seguida de uma outra sala de refeições, predominantemente branca, que, já num corredor, conta ainda com algumas mesas ao estilo de um dinner,  com bancos corridos dourados, até chegarmos ao balcão do sushibar, com vários sushimen em acção, onde voltamos ao branco. O bar, em frente, esse é dourado.

[O sushibar (foto de divulgação)]

A atmosfera descontraída, mas badalada, deste SushiCafé lembrou-me muito os japoneses que encontramos no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro. Em rigor, não se trata de um japonês puro e duro, no sentido mais formal, pois a ementa, criada pelo chef Daniel Rente, faz incursões pela cozinha molecular, joga com as diferentes texturas dos alimentos, mas tem praticamente tudo que se espera encontrar num bom japonês, mais as novidades (como a secção temakis) e coisas pouco habituais entre nós como o Guindara Goma (bacalhau de pele negra com molho de sésamo) ou o Buta Shoga (barriga de porco cozinhada a baixa temperatura).

[A ementa pensada para os almoços, com três opções de menus (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Instalado ao balcão — e depressa me apercebi do privilégio, pois não foram poucos os que chegaram depois e nem já ai tiveram lugar —, hesitei entre pedir à la carte ou escolher um dos três menus disponíveis para o almoço (€16,50, €19,50 e €21,50, sempre três pratos com direito a chá ou a outra bebida de pressão). A preguiça falou mais alto e acabei por me decidir pelo menu do meio, o Omakase Sake Teriyaki; para beber, um chá verde gelado.

[primeiro prato, Misoshiru com um agrado do chef ao lado (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Demorei mais para pedir do que era suposto, e recomendável, mas na hora de começarem a servir à mesa (ao balcão, no caso), a coisa já correu melhor e célere q.b. Primeiro veio o Misoshiru. Toda a gente já comeu o caldo de miso ou missô (pasta obtida a partir da fermentação de vários ingredientes como arroz e cevada), cebolinho, sésamo, wakame (alga), tófu e pó de shitase, mas este estava muito feito. Ao lado, um mimo do chef, uma carne em molho agridoce cujo nome me esqueci de anotar.

[Bolsas Orientais (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Seguiram-se três Bolsas Orientais sobre uma pedra de basalto.  No fundo, envelopes ou saquinhos feitos em papel de arroz recheados depois com rúcula, manga, inari (tófu frito) e camarão. Uma combinação certeira, que me conquistou pela frescura.

[Sake Teriyaki (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Para encerrar com chave de ouro, o Sake Teriyaki, um lombo de salmão teriyaki (marinado e depois grelhado na brasa) muito saboroso, escondido sob um novelo de batata doce — uma capa muito fina e estaladiça — enfeitado com legumes. Quase dispensava a tigela de arroz que veio como acompanhamento.

[A acompanhar o salmão, uma tigela de arroz com sementes (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Saciado, dispensei o café e a sobremesa, tendo pago no final €21 (pedi uma água extra ao menu). E, mais importante, sai satisfeito e agradado pela qualidade da comida, pela frescura dos ingredientes e pelo conceito. Tanto que fiquei seriamente tentado a experimentar as suas SushiBoxes, as marmitas com vários tipos de combinados que se podem encomendar no serviço de take-away.

Rua Barata Salgueiro, 28, tel. 211 928 158, almoços, de seg. a sáb., entre as 11.00 e as 16.00; jantares, de seg. a qui. entre as 19.00 e a 01.00, sex. e sáb. entre as 19.00 e as 02.00 

31.5.11

guilty by olivier

[Aberto para a rua Barata Salgueiro, o Guilty by Olivier têm em primeiro plano um bar e algumas mesas que tanto servem para refeições como para fazer uma happy hour (foto de divulgação)]

Há quem siga Olivier Costa para onde quer que ele vá, seguros de que tudo em que ele se mete está fadado a cair bem, a ser falado e a ter sucesso. Há também quem não o suporte e não o leve a sério como chef, preferindo, sem disfarçar o desdém, vê-lo como um homem de negócios, como se isso fosse o pior dos pecados num restaurateur.

Mas Olivier, um provocateur assumido, não faz o perfil de vítima inocente da maledicência alheia. Primeiro porque, goste-se ou não do género, soma e segue, estando os seus restaurantes entre os mais influentes da capital. Segundo porque ele não resiste a espicaçar a concorrência e os seus inúmeros detractores, proferindo, ou melhor, disparando frases do tipo: "Quando ando de Ferrari ficam todos lixados. Eles não percebem como é que eu ganho dinheiro e depois pensam que faço negócio de armas para Angola e o restaurante é apenas uma fachada" (in Rotas & Destinos, Agosto de 2010).

[Na decoração predominam os tons castanhos, as peles de vaca, os sofás de couro, mas também os grandes fornos a lenha e uma parede forrada a madeira aproveitada das caixas de vinhos (foto de divulgação)]

A nova aventura empresarial de Olivier demorou mais do que era suposto — chegou a ser anunciada, ainda sob o nome provisório de Olive Oil, para o final do Verão passado, mas acabou por abrir já só este ano, em Abril —, mas, sim, tudo aponta para que estejamos perante outro retumbante sucesso de público (de crítica é outra história).

Ainda sem esplanada na calçada, mas com as portas escancaradas para a Barata Salgueiro, à Avenida da Liberdade, o Guilty by Olivier não passa despercebido. Cheguei, sem reserva, um pouco antes das 20.30 e, numa terça à noite, a hostess (Helga Barroso, uma cara conhecida pela sua ligação a outros projectos mais ou menos temporários) indicou-me que todas as mesas estavam já reservadas, mas que poderia sentar-me ao balcão.

[Mais uma perspectiva da sala mais recuada, a partir do bar (foto de divulgação)]

Como estava sozinho não me importei (muito). Afinal, o balcão arredondado, cercado por bancos de pé alto com assento em pele de vaca, funciona como um ponto intermédio entre a entrada e a sala, proporcionando um posto de observação privilegiado.

A sala, em tons de castanho, é escurinha e funda, com uma das paredes revestida a madeira aproveitada das caixas de vinho, sofás de couro, tapetes de pele de vaca no chão e dois enormes fornos a lenha, importados de Itália, onde se assam as pizzas.

Ao contrário dos outros restaurantes de Olivier, este Guilty é suposto ser uma pizzaria e hamburgueria, onde também se servem massas e saladas, com estilo, mas bem mais em conta. Uma primeira consulta da carta confirmou-me o que já suspeitava: tratando-se de Olivier, o "mais em conta" é relativo. Mas, tudo bem, ainda assim preços razoáveis com entradas entre €3 e €8 (há um prato mediterrânico a €15, mas dá para duas pessoas), saladas entre €10 e €16, massas entre €13 e €17, hambúrgueres (200gr picanha Black Angus, importada dos EUA) entre €16 e €22, pizzas entre €11 e €19 (podem ser perfeitamente partilhadas) e, por fim, sobremesas entre €3 e €9.

[Rolinhos Guilty, a entrada de assinatura, servidos com rúcula (foto de divulgação)]

Fiquei tentado a escolher uma pizza — reparei que todas, e são 12 opções, levam uma selecção especial de queijos o que, por mais que seja uma aposta da casa, não sei se foi bem pensado tendo em conta que MUITA gente não aprecia queijo... Acabei por escolher como entrada um rolinho Guilty (são pedidos à unidade, €5,50/cada), que me chegou no prato acompanhado por rúcula e salpicado por vinagre balsâmico. Feito com massa da pizza, é recheado com a tal selecção de queijos, presunto e pasta de trufa preta. Como aperitivo é agradável.

Para beber, hesitei entre uma cerveja e vinho. Decidi-me por um copo de tinto da casa. A partir das 21, a sala começou a encher e o balcão do bar ficou sem lugares vagos. A clientela, que vem sobretudo aos pares, é uma mistura de novos e não tão novos assim, de gente-que-veio-tal-como-estava e de  gente-que-se-produziu-para-a-ocasião, de locais e forasteiros. Sei que uma das pretensões de Olivier com este Guilty foi preencher o vazio na Avenida deixado pela partida do Luca [Manissero], mas, até ver, e mesmo tendo investido mais no décor e estando, porventura, a facturar mais ainda, o ambiente e a clientela não são, pareceu-me, os mesmos — relatos fidedignos asseguram-me, porém, que, na sua vertente de bar e ao som de um Dj residente, o espaço é do mais animado que já se viu alguma vez por estas bandas nos últimos tempos.

[Hambúrguer Guilty, entre outras quatro opções (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Como prato, opto pelo hambúrguer Guilty (€19), servido em pão aberto com cebola confitada, queijo Cheddar, bacon e ovo estrelado. No prato vem ainda uma tigela de batatas fritas. A carne pode ser Premium, como frisa Olivier, mas dentro da proposta de hamgúrgueres gourmet já comi melhor. Bem melhor. E porque é raro, hoje em dia, comer batatas fritas, quando abro a excepção, gosto que sejam excepcionais — e há batatas fritas excepcionais — e estas eram tão-só razoáveis. 

Dispensei a sobremesa — pelo menos duas variedades de pizzas doces, mais umas quatro ou cinco sugestões, incluindo fruta e sorvetes — e pedi um café. Serviço rápido. Paguei €30,50, sendo que pelo copo de vinho tinto da casa, normalíssimo, me cobraram €5. Um exagero.

É possível comer mais barato no Guilty by Olivier, mas só com muita contenção se sairá de lá a pagar menos do que €20-€25 por pessoa. Não é nada de outro mundo, mas por esse preço, em Lisboa, ainda é possível comer e beber melhor (inclusive pizzas). Mas, as pessoas, parece-me, nunca vão a um restaurante do Olivier apenas pela comida. Ou vão?

Rua Barata Salgueiro, 28, tel. 21 191 3590, almoços de seg. a dom., entre as 12.00 e as 15.00; jantares de dom. a qui., entre as 19.00 e as 01.00; jantares de sex. e sáb., entre as 19.00 e as 02.00

27.5.11

fora de portas: fortaleza do guincho, parte 3 | o restaurante

[Ancorada junto ao mar, pairando sobre a praia do Guincho, a Fortaleza reservou para o seu restaurante estrelado algumas das melhores vistas (fotos de divulgação)]

O prometido é devido.

Apresentados os chefs e explicado o conceito do restaurante da Fortaleza do Guincho no post anterior, é chegada a hora de passar à mesa.

Antes, porém, um mea culpa. Era minha intenção ter aqui as fotos de todos os pratos que degustei naquela noite, num jantar em que perdi a conta às horas, mas acabei por não fazê-lo por duas razões: a primeira é que, na expectativa de chegar e instalar-me, comecei por me esquecer de puxar pela máquina; a segunda é que, quando me lembrei, resolvi deixá-la quieta onde estava. Por uma vez, decidi concentrar-me na comida e aproveitar a companhia.

Há quem prefira o restaurante ao almoço, porque é então que se tira o máximo proveito da vista sobre o mar, servida de bandeja. Outros preferem realçar a carga quase teatral que se sente ao jantar, altura em que as luzes e o décor contribuem para a ilusão, quase perfeita, de estarmos num palco sobre o Atlântico.

Não tiro a razão nem a uns nem a outros. Da mesma forma que reconheço pertinência em quem já acha ser chegado o momento de trocar a decoração pesada, e talvez excessivamente datada, por algo que mantenha a classe — era só o que faltava é que todos os restaurantes (e hotéis) tivessem de sucumbir à ditadura do "design" e do "minimal" —, mas que seja mais uptodate.

[Parece ou não uma mesa colocada à boca de cena? (foto de divulgação)]

E chega de preâmbulos.

Não sei se a mesa que me coube em sorte era exactamente a que se vê na foto superior, mas se não foi esta, foi outra igualzinha. Um privilégio que não me passou ao lado. Nem a mim, nem à minha companhia — porque este é o tipo de experiência que sabe tão melhor quando partilhada.

[Dia ou noite? Almoço ou jantar? A dúvida é pertinente... (©paulo barata)]

Numa altura em que tanto se fala, e se sente, a crise, confesso que temi a perspectiva sempre embaraçosa de sermos os únicos na sala — jamais esquecerei o desconforto de um almoço com a sala vazia, há muitos anos, no Tavares... —, mas não. Num dia da semana, o restaurante não estava cheio, mas boa parte das mesas estava ocupada.

[Um serviço requintado que se justifica plenamente num restaurante deste nível (©paulo barata)]

Bem melhor assim.

Com anos de prática, e uma estrela Michelin para honrar, o serviço de sala está afinado. E sim, este é um restaurante onde se faz gala em prestar um serviço refinado (e presente na medida justa), com os empregados de mesa a terem na ponta da língua os ingredientes que vão em cada prato e a saberem também aconselhar. Há restaurantes de muitos tipos, para diferentes ocasiões e propósitos. Neste, justifica-se plenamente um serviço mais requintado.

[Mestre e pupilo, Westermann e Farges; o primeiro, com três estrelas Michelin, é o consultor gastronómico, o segundo, com uma estrela Michelin, é o chef executivo (©paulo barata)]

E, a menos que se saiba muito bem ao que se vem — e há quem saiba, claro, sobretudo os clientes repetentes e amantes do repertório do chef Westermann —, é bom ter quem nos esclareça. Vinhos e outras bebidas à parte, na carta as entradas custam a partir de €25, os pratos desde €30 e as sobremesas começam nos €14. Mais vantajoso, e interessante para quem não é um habitué atrever-me-ia a acrescentar, é optar pelo menu da estação (quatro por ano, portanto) ou de degustação, entre €50 e €70 por pessoa (bebidas não incluídas, relembro). 

Barato não é, mas é um valor justo.

Optámos pelo menu de degustação, harmonizado com vinhos diferentes a copo para cada prato.

[Vincent Farges, à dir., em plena acção durante um evento gastronómico recente na Fortaleza do Guincho (foto D.R.)]

A abrir, como amuse-bouche, um shot de cenoura, vegetais tenros — muito frescos, que Vincent Farges, como expliquei anteriormente, faz questão de importar de hortas locais — e geleia de galinha. Não o encontrei, mais tarde, em nenhuma das cartas, o que só prova que Farges se permite variar nestas espécies de pré-entradas.

Continuámos no espumante, que acompanhou muito bem uma entrada que já se tornou um prato de assinatura de Farges: vieiras marinadas com limão-caviar, tártaro de legumes crocantes com lima e brioche com funcho.

Mudámos para um branco, ideal para o salmonete assado condimentado com os fígados e limão confit, acompanhado por um refogado de legumes com manjericão e lascas de alho. Porventura, foi o prato de que mais gostei nessa noite, apesar de haver quem não aprecie o gosto mais acentuado deste peixe.

[A frescura dos ingredientes é crucial, dos legumes e vegetais aos peixes, para o resultado final desejado por Farges [foto D.R.)]

Já não sou tão fã de borrego, ainda que reconheça a subtileza da versão que Farges nos apresentou nessa noite. Borrego de leite assado, streussel de funcho, favas e molho do assado por cima. E um tinto encorpado, claro.

Nas mignardises, que antecedem a sobremesa propriamente dita, dois deliciosos e refrescantes sorvetes: canela com frutos vermelhos e manga.

E chegou a sobremesa, escudada por um Porto, composta por morangos algarvios macerados com manjericão e vinagre balsâmico, cremoso e telhas estaladiças, sorvete de lima-manjericão e molho de morango. Um remate perfeito que me lembrou o desabafo de uma crítica gastronómica: "estou farta de sobremesas que, no final, nos deixam com desejo de um bom chocolate!". Pois não foi o caso. Esta é uma sobremesa que inclui ervas aromáticas e até vinagre balsâmico, mas tem aparência, e gosto, de doce.

Se gostei de tudo? Gostei mais de umas coisas, de outras menos. Mas isso é normal. O que interessa ressaltar é que, chegados a este patamar de exigência — e por mais que o paladar seja uma coisa subjectiva, que não sejamos peritos em tempos de cozedura e não dominemos as bases da cozinha francesa —, para se cumprir a expectativa, tem de haver um rasgo, uma identidade, um traço que faça a diferença.

E isso a cozinha do Guincho, praticada por Farges, tem. Podemos gostar mais ou menos de determinada coisa, mas há sempre ali qualquer coisa de genial. Com a vantagem de que se tem vindo a tornar uma cozinha muito mais abordável — a simplicidade não tem nada de básico — e que é um prazer redobrado ver cada vez mais ingredientes portugueses a serem trabalhados a alto nível.

[Criação de Vincent Farges para o evento Peixe em Lisboa, onde provou que uma cozinha com uma estrela Michelin também pode, e deve, ser capaz de criar alternativas mais em conta (©fabrice demoulin)]

Para terminar, uma nota para aqueles que nunca foram à Fortaleza do Guincho e acham que este meu post só veio confirmar o quão elitista o lugar é. Da mesma maneira que se incentiva quem passa a entrar e a ver o lugar — que é afinal um património histórico antes de ser um hotel e um restaurante —, também houve o cuidado de pensar numa ementa mais informal, e mais em conta, para servir no bar e esplanada.

Não é preciso ser hóspede para desfrutar do pequeno-almoço (que custa €15) ou de um chá com scones (que custa €7,50). Nem o restaurante é a única maneira de chegar à cozinha de Farges (sanduíches entre €6 e €16, saladas entre €7 e €15, massas e sopas entre €6 e €15, além de sobremesas entre €4 e €7,50).

Estrada do Guincho, Cascais, tel. 214 870 491, todos os dias, almoços entre as 12.30 e as 15.30 e jantares entre 19.30 e as 22.30
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26.5.11

fora de portas: fortaleza do guincho, parte 2 | o chef, a estrela, a adega e o conceito

[O mar não é apenas uma vista de cartão postal na Fortaleza do Guincho, ele está também muito presente na carta do restaurante (©paulo barata)

Ganhar uma estrela Michelin não é fácil, mas bem mais difícil é mantê-la por anos a fio sem fazer "apenas" mais do mesmo

O restaurante da Fortaleza do Guincho, aberto há tantos anos quanto o hotel, ganhou a sua pela primeira vez em 2001, numa altura em que o feito era praticamente inédito entre nós.

Nos últimos anos,  o restaurante juntou uns quantos prémios ao seu palmarés  — inclusive acaba de ser distinguido, uma vez mais, com o Garfo de Ouro, atribuído pelo guia Boa Cama, Boa Mesa 2011, do jornal Expresso —, mas, ainda que praticamente todos lhe reconheçam excelência e  constança, não desperta o mesmo entusiasmo de uma novidade.

Um exemplo disso foi o artigo recente do crítico espanhol Carlos Maribona — já lhe fiz referência num outro post —, que teceu uma crítica positiva, sem mácula, mas desprovida de paixão.  

E o Guincho-Restaurante não quer críticas mornas. Quer voltar a despertar entusiasmo e a provocar arrebatamento.

[As rochas, com mar batido, sobre as quais a Fortaleza finca os seus alicerces, são lugar disputado por muitos pescadores amadores (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Para isso, sabem-no bem, precisam cativar uma clientela mais jovem — mas assumidamente gourmet e disposta a pagar pelos prazeres de uma boa mesa — e contrariar a ideia instalada de que no Guincho se serve uma cozinha francesa pura e dura, sem muito a ver com a realidade e gosto portugueses.

Também por isso, Antoine Westermann, consultor gastronómico desde o início e responsável pela filosofia de cozinha franco-portuguesa na Fortaleza, tem sabido, sem se afastar por completo de cena, delegar cada vez mais no seu jovem e talentoso chef executivo, Vincent Farges, a tarefa de, sem perder a essência, modernizar e aprimorar o conceito.

O que faz sentido, se pensarmos que é Farges, e não Westermann, que está a tempo inteiro ao comando da cozinha. A sua saída temporária, e passagem por lugares como Marrocos e Grécia, foi determinante para o seu crescimento e afirmação no regresso, em 2005, à Fortaleza do Guincho.

[Chef Antoine Westermann, consultor gastronómico, e chef executivo Vincent Farges, dois franceses no comando da cozinha da Fortaleza do Guincho (foto de divulgação)]

De toda a forma, o legado de Westermann (detentor de três estrelas graças ao restaurante Buerehiesel, em Estrasburgo) não foi esquecido, e continua a ser a base, mas hoje Farges tem crédito — e aval — para poder criar e inovar sem estar tão espartilhado por ele. 

A cozinha francesa, rigorosa e formal, de Westermann sempre teve seguidores fiéis na Fortaleza, mas o Guincho não é Estrasburgo ou Paris; nem Portugal é a França — só para dar uma ideia, a atribuição de uma estrela Michelin a um restaurante francês significa, em média, um acréscimo da facturação na ordem dos 25%.

Foram precisos anos para que no Guincho percebessem esta nuance fundamental, mas, comprovada a evidência, Farges pôde, finalmente, enveredar por uma cozinha de técnica irrepreensível francesa, mas mais leve e, cada vez mais, portuguesa.

Ganhar novos clientes, sem defraudar os que se tornaram habitués, não são favas contadas; requer ousadia, mas também uma boa dose de equilíbrio e bom senso — afinal, está também uma estrela Michelin em causa.

[Bastante entrosado com a realidade portuguesa, Vincent Farges tem sido determinante para introduzir na alta gastronomia do Guincho, de base francesa, sabores e texturas lusos (©paulo barata)]

Trabalhar com ingredientes portugueses ao nível da alta gastronomia não é tão fácil como pode parecer à primeira vista. Não porque não tenhamos matéria-prima para isso, mas porque não existe, como em França ou na Alemanha, mercados especializados e os produtores nacionais, por regra, não têm ainda o hábito de baterem à porta dos grandes restaurantes para dar a conhecer os seus produtos. 

Farges não esmoreceu e, cada vez mais seduzido pelo que tem descoberto por cá, vem desenvolvendo um trabalho de campo assinalável, criando a sua carteira de fornecedores — inclusive entre pescadores e mergulhadores, ele que também pratica pesca submarina — e assumindo o risco (calculado) de executar cartas que variam não só em função das estações, mas também (em menor escala) do que há no mercado.

[Os amuse-bouche, que antecedem as entradas e são compostos por shots e composições subtis, revelam desde logo a aposta de Farges nos produtos frescos e, se possível, portugueses (©paulo barata)]

E da cozinha passo à adega. Para muitos, sobretudo para quem leva a peito estas coisas, dois prazeres  indissociáveis.

Com mais de 800 rótulos, provenientes de todo o mundo, a adega da Fortaleza do Guincho tem fama — e pressuponho que o proveito — de ser uma referência nacional e internacional, como o comprova a atribuição, por quatro anos consecutivos entre 2007 e 2010, do Best Award of Excellence por, nada mais, nada menos, do que a "bíblia" do sector: a revista norte-americana Wine Spectator

[Sommélier Inácio Loureiro, eleito o melhor de Portugal, em 2010, por diversas revistas da especialidade (©paulo barata)]

Por cá, louros também não lhe faltam; em especial para Inácio Loureiro, sommélier da casa desde 2007, que foi eleito, em 2010, o melhor da sua categoria por diversas revistas da especialidade.

Por regra, fala-se menos dos escanções, mas num restaurante deste gabarito, a marca que imprime pode até ser discreta, mas não deve nunca passar despercebida ou ser indiferente. Cabe a ele harmonizar cada prato, se for esse o desejo do cliente, com um vinho diferente. 

Nas últimas degustações, nota-se uma aposta muito forte nos vinhos do Douro, o que, a julgar pelo que se lê e escuta aqui e ali, se tem revelado uma escolha certeira. 

Há quem ache — como Carlos Maribona, voltando ao crítico espanhol — a carta de vinhos da Fortaleza do Guincho muito cara, mas não há registo — pelo menos recente ou digno de nota — de alguém capaz de lhe encontrar uma falha ou lacuna imperdoáveis.

Posto isto, e porque não era suposto tornar este texto demasiado longo ou técnico — ou em conversa de "gastrochatos", para utilizar uma expressão mais divertida —, fica desde já prometido que o próximo, e derradeiro, post será para contar o meu último jantar no Guincho, onde me foi dada a oportunidade de degustar vários pratos da carta desta estação.

Acredito, porém, que todas estas linhas não foram em vão. Elas têm uma razão de ser. É que certas coisas — ou melhor, certos prazeres — ganham um outro sentido, e sabor, quando sabemos como se chegou até ali.

Estrada do Guincho, Cascais, tel. 214 870 491

25.5.11

fora de portas: fortaleza do guincho, parte 1 | o hotel


[As melhores vistas são a partir das três suites junior da Fortaleza do Guincho (©paulo barata); abaixo: escadaria de acesso ao primeiro piso (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Há ainda quem se intimide com os seus ares de fortaleza e não se atreva a espreitar...

... esta é uma ideia, entre outras, que a equipa deste hotel-restaurante tenta contrariar, demonstrando a todo o momento, que sim, não é um lugar para todos os dias, mas pode ser um lugar para todos. 

Praticamente sobre o mar, com a praia do Guincho de um lado e de outro, os quartos não chegam a 30 e não há piscina, mas há conforto, serviço personalizado e um à-vontade nem sempre possível em outras unidades cinco estrelas. 

Para muitos, o seu restaurante franco-português — que tem sabido manter com brio a estrela Michelin conquistada há vários anos — é o grande chamariz, mas a Fortaleza do Guincho tem vindo a criar alternativas, sempre boas mas mais em conta, para outras ocasiões.

O pequeno texto acima, escrevi-o eu, há dias e com ligeiras alterações, para a revista Evasões (a Fortaleza do Guincho é um dos 50 hotéis escolhidos em Portugal para ilustrar a edição de Junho). 

[Um dos 27 quartos, divididos em três categorias (©paulo barata)]

Mas muito mais há dizer. Por isso, e porque os feriados de Junho estão à porta como pretexto para uma escapada — e não é preciso, insisto na ideia, ir muito longe para mudar de ares e rotina —, resolvi sair, uma vez mais, da Lisboa Cidade para fazer uma sugestão na Lisboa para Lá da Cidade. 

[Entrada para as três suites junior, no piso superior (©paulo barata)]

Afinal, a Fortaleza do Guincho está apenas a sete quilómetros de Cascais (e a 30 de Lisboa, mais coisa, menos coisa), mas, já junto ao Farol do Cabo da Roca, é como se estivesse a milhas de distância.

[Pátio central, com clarabóia retrátil (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

E era mesmo isso que me apetecia. Depois de dias a fio a condensar num só artigo 200 sugestões globais para assinalar o nº200 da revista Volta ao Mundo (edição de Junho, já agora), queria dormir, apanhar sol, ir a banhos e comer muito bem, sem ter de me ralar com pormenores ou logística. 

Consegui tudo isso. De um dia para o outro.

[O pequeno-almoço, servido em buffet (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Cheguei a meio da tarde. O pátio da antiga fortaleza — data do século XVII, mas da construção original resta muito pouco, tantas foram as reviravoltas da História — faz as vezes de recepção, de lobby e de sala de estar. Coberto por uma clarabóia retrátil, consegue ser imponente, sem chegar a ser intimidante. Pelo contrário, é aconchegante.

[A vista matinal a partir da Fortaleza (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Os quartos, não mais que 27, distribuem-se à volta do mesmo — os standard, em baixo, têm vista lateral para o mar; os superiores, em cima, possuem uma varanda fechada com chaise longue; fora as três suítes junior, mais luxuosas e com a melhor vista).  Sem mais demoras, larguei a minha pouca bagagem no quarto, troquei de roupa e fui para a praia.

[A Fortaleza não se fecha ao que a rodeia (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Simples assim. Como hotel, a Fortaleza do Guincho existe desde 1959, mas foi em 1998 que ganhou o actual estatuto que lhe permitiu, inclusive, integrar a cadeia Relais & Châteaux. 

Agrada-me que, enquanto pequena unidade de luxo, permita ao hóspede um à-vontade que exige saber-estar, mas que dispensa maiores formalidades. A prová-lo, as várias portas abertas laterais, que nos permitem entrar e sair sem dar explicações; gostei menos do ar démodé da decoração. É um hotel clássico, com uma tónica romântica, mas os anos não perdoam e o que funcionou na década de 1990, já não agrada agora. São gostos, claro, mas não serei o único a notá-lo.

Um detalhe. Que se torna mais e mais pequeno ante outras lembranças. 

Como ter apenas de caminhar uns metros, descer umas escadas e já estar na praia. 

Como ter uma mesa marcada no restaurante, estrategicamente junto a uma janela virada para o mar, e poder ficar a degustar, sem olhar para o relógio, o novo menu da estação executado sob a supervisão de Vincent Farges (mas isso é assunto para outro post). 

Como acordar no dia seguinte, e, ainda antes de descer para o pequeno-almoço, antecipar, para lá da neblina matinal habitual, mais um dia glorioso. E ver as ondas, quais armadas de espuma enviadas por Neptuno, desembarcarem na praia.

Poderia continuar, mas acho que já transmiti a ideia de que se trata, antes de tudo o mais, de uma experiência. Uma experiência ao alcance de mais gente do que se supõe à partida — porque está perto; porque não é barato, mas também não é proibitivo; e porque não existe apenas uma maneira de desfrutar do Guincho, mas sim várias e disso falarei nos posts seguintes.


Estrada do Guincho, Cascais, tel. 214 870 491, pacote Gourmet desde €400 para 2 pax (ver aqui) e pacote Romântico desde €265 para 2 pax (ver aqui)
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