25.5.11

fora de portas: fortaleza do guincho, parte 1 | o hotel


[As melhores vistas são a partir das três suites junior da Fortaleza do Guincho (©paulo barata); abaixo: escadaria de acesso ao primeiro piso (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Há ainda quem se intimide com os seus ares de fortaleza e não se atreva a espreitar...

... esta é uma ideia, entre outras, que a equipa deste hotel-restaurante tenta contrariar, demonstrando a todo o momento, que sim, não é um lugar para todos os dias, mas pode ser um lugar para todos. 

Praticamente sobre o mar, com a praia do Guincho de um lado e de outro, os quartos não chegam a 30 e não há piscina, mas há conforto, serviço personalizado e um à-vontade nem sempre possível em outras unidades cinco estrelas. 

Para muitos, o seu restaurante franco-português — que tem sabido manter com brio a estrela Michelin conquistada há vários anos — é o grande chamariz, mas a Fortaleza do Guincho tem vindo a criar alternativas, sempre boas mas mais em conta, para outras ocasiões.

O pequeno texto acima, escrevi-o eu, há dias e com ligeiras alterações, para a revista Evasões (a Fortaleza do Guincho é um dos 50 hotéis escolhidos em Portugal para ilustrar a edição de Junho). 

[Um dos 27 quartos, divididos em três categorias (©paulo barata)]

Mas muito mais há dizer. Por isso, e porque os feriados de Junho estão à porta como pretexto para uma escapada — e não é preciso, insisto na ideia, ir muito longe para mudar de ares e rotina —, resolvi sair, uma vez mais, da Lisboa Cidade para fazer uma sugestão na Lisboa para Lá da Cidade. 

[Entrada para as três suites junior, no piso superior (©paulo barata)]

Afinal, a Fortaleza do Guincho está apenas a sete quilómetros de Cascais (e a 30 de Lisboa, mais coisa, menos coisa), mas, já junto ao Farol do Cabo da Roca, é como se estivesse a milhas de distância.

[Pátio central, com clarabóia retrátil (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

E era mesmo isso que me apetecia. Depois de dias a fio a condensar num só artigo 200 sugestões globais para assinalar o nº200 da revista Volta ao Mundo (edição de Junho, já agora), queria dormir, apanhar sol, ir a banhos e comer muito bem, sem ter de me ralar com pormenores ou logística. 

Consegui tudo isso. De um dia para o outro.

[O pequeno-almoço, servido em buffet (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Cheguei a meio da tarde. O pátio da antiga fortaleza — data do século XVII, mas da construção original resta muito pouco, tantas foram as reviravoltas da História — faz as vezes de recepção, de lobby e de sala de estar. Coberto por uma clarabóia retrátil, consegue ser imponente, sem chegar a ser intimidante. Pelo contrário, é aconchegante.

[A vista matinal a partir da Fortaleza (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Os quartos, não mais que 27, distribuem-se à volta do mesmo — os standard, em baixo, têm vista lateral para o mar; os superiores, em cima, possuem uma varanda fechada com chaise longue; fora as três suítes junior, mais luxuosas e com a melhor vista).  Sem mais demoras, larguei a minha pouca bagagem no quarto, troquei de roupa e fui para a praia.

[A Fortaleza não se fecha ao que a rodeia (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Simples assim. Como hotel, a Fortaleza do Guincho existe desde 1959, mas foi em 1998 que ganhou o actual estatuto que lhe permitiu, inclusive, integrar a cadeia Relais & Châteaux. 

Agrada-me que, enquanto pequena unidade de luxo, permita ao hóspede um à-vontade que exige saber-estar, mas que dispensa maiores formalidades. A prová-lo, as várias portas abertas laterais, que nos permitem entrar e sair sem dar explicações; gostei menos do ar démodé da decoração. É um hotel clássico, com uma tónica romântica, mas os anos não perdoam e o que funcionou na década de 1990, já não agrada agora. São gostos, claro, mas não serei o único a notá-lo.

Um detalhe. Que se torna mais e mais pequeno ante outras lembranças. 

Como ter apenas de caminhar uns metros, descer umas escadas e já estar na praia. 

Como ter uma mesa marcada no restaurante, estrategicamente junto a uma janela virada para o mar, e poder ficar a degustar, sem olhar para o relógio, o novo menu da estação executado sob a supervisão de Vincent Farges (mas isso é assunto para outro post). 

Como acordar no dia seguinte, e, ainda antes de descer para o pequeno-almoço, antecipar, para lá da neblina matinal habitual, mais um dia glorioso. E ver as ondas, quais armadas de espuma enviadas por Neptuno, desembarcarem na praia.

Poderia continuar, mas acho que já transmiti a ideia de que se trata, antes de tudo o mais, de uma experiência. Uma experiência ao alcance de mais gente do que se supõe à partida — porque está perto; porque não é barato, mas também não é proibitivo; e porque não existe apenas uma maneira de desfrutar do Guincho, mas sim várias e disso falarei nos posts seguintes.


Estrada do Guincho, Cascais, tel. 214 870 491, pacote Gourmet desde €400 para 2 pax (ver aqui) e pacote Romântico desde €265 para 2 pax (ver aqui)

24.5.11

os novos quiosques da avenida

[A Maritaca, conhecida pelas suas pizzas em forno de lenha, assumiu um dos quiosques da Avenida da Liberdade (foto de divulgação); abaixo: detalhe do pináculo dos quiosques (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Os quiosques voltaram a estar na moda ou nunca deixaram de estar? Depois de Catarina Portas, que tentou devolver hábitos antigos aos lisboetas (se bem que, parece-me, são mais os visitantes a tirar partido deles...), a dupla Maria Ribeiro e Castro e Bernardo Delgado é responsável pelos novos quiosques temáticos da Avenida da Liberdade, em funcionamento desde meados de Maio.

A superfície de um quiosque é sempre limitada, por muito boa vontade que haja, o que pressupõe, desde logo, uma logística também limitada, mas estes prometem algumas novidades no conceito e na forma.

[Esplanada e quiosque explorados pelo Melhor Bolo de Chocolate do Mundo (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Padronizados — assim o determinou o concurso aberto pela Câmara Municipal de Lisboa, no ano passado, para a sua concessão —, apresentam-se discretos no seu verde-escuro, apenas quebrado por toldos em tom cru, a condizer com os chapéus de sol e cadeiras das respectivas esplanadas, onde, detalhe importante, se aboliu o plástico e as marcas patrocinadoras. A medida, que deve ser estendida a outras áreas nobres da capital, como a Praça do Comércio, não agrada a todos os comerciantes, mas, sejamos razoáveis, tem razão de ser.

[Esplanada e quiosque explorados pelo Melhor Bolo de Chocolate do Mundo (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Dos seis previstos, distribuídos entre os Restauradores e a Alexandre Herculano, de um lado e do outro da avenida, anunciava-se que apenas cinco seriam inaugurados em Maio, ficando o sexto adiado até Setembro. Ou perdi um de vista, ou só contei quatro, mas isso também não interessa agora para o caso.

[Esplanada e quiosque explorados pela pizzaria Maritaca (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Quem passa parece já ter aderido à ideia, pois qualquer uma das esplanadas, ao final da tarde, estava composta. O projecto inicial, se for cumprido à risca, fala em quiosques abertos até às duas da manhã (só aos fins-de-semana), onde, a preços competitivos, será possível comer desde pizzas e cachorros quentes gourmet até doçaria típica, sumos naturais e comida saudável, sem esquecer de atender o hábito muito português de ir só para beber um café ou um copo (do vinho nacional às incontornáveis caipirinhas).


O Banana Café, vencedor do concurso, ficou com dois para si, onde terá os batidos, os smoothies, os sumos de frutas e vegetais 100% naturais (sempre hei-de prová-los para os comparar aos do meu post anterior...), além de wraps, saladas, sopas, fruta à peça, muffinscookies e cones de frutos secos, que ninguém é de ferro. 


A Maritaca, nos Restauradores (na esquina com a rua da Alegria), serve as suas pizzas, ao passo que os cachorros quentes estarão a cargo da Hotdog Lovers (que já esteve no miradouro São Pedro de Alcântara). Junto a um dos lagos, o que torna a esplanada ainda mais pitoresca, o Melhor Bolo de Chocolate do Mundo chegou à Avenida e, pelo que vi, o seu quiosque promete ser dos mais concorridos.


Avenida da liberdade, em vários pontos, de seg. a qua., entre as 09.00 e as 23.00, de qui. a sáb., entre as 09.00 e as 02.00, e aos dom., entre as 09.00 e as 23.00

23.5.11

liquid na merendinha

[No lugar da antiga Merendinha, à Baixa, surgiu uma casa de sumos e smoothies 100% naturais (fotos  de divulgação)]

A rua Nova do Almada, na Baixa, começa a deixar-nos mal habituados. Num espaço relativamente curto de tempo, têm-se sucedido as novidades e uma das mais recentes atende pelo nome sugestivo de Liquid na Merendinha

Há umas semanas, durante um almoço, chegou-me aos ouvidos que no lugar do vetusto café Merendinha — património municipal da cidade de Lisboa desde 1936 que, para desgosto dos mais fiéis à sua famosa limonada, havia fechado as portas em 2010 —, estava agora a funcionar um bar de sumos e smoothies 100% naturais como ainda não se vira por estas paragens. Fiquei curioso, claro.

[A entrada, pela rua Nova do Almada (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Por fim, hoje à tarde, lá arranjei tempo para dar um salto até à Baixa-Chiado e, sem mais demoras, embiquei directamente à Merendinha. Não fosse o novo letreiro colorido e o ajuntamento à porta — que logo reconheci tratar-se da redacção em peso da UP, a revista de bordo da TAP, com sede na rua do lado —, e teria acreditado, assim à primeira vista, que alguém me pregara uma peça.

[O espaço é exíguo, com apenas dois balcões, mas simpático e colorido (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Mas não. O espaço pode até continuar a ser o mesmo, ou seja exíguo e num vão de escada, mas o espírito, a oferta e até a decoração são totalmente outros. Respirei de alívio.

[Todos os sumos e smoothies são preparados na hora (foto de divulgação)]

Na caixa, Teresa Alves Barata — sócia, juntamente com José Salazar —, dá as boas-vindas a quem chega ainda hesitante e não se faz nada rogada em explicar o conceito da casa e em fazer as suas sugestões em função das preferências de cada um. 

[As bebidas são servidas em copos feitos com amido de milho, logo totalmente compostáveis (foto de divulgação)]

A carta divide-se em sumos de frutas e vegetais e smoothies com várias combinações possíveis, mais ou menos energéticos (nos suplementos, destaque para o guaraná, o camu-camu, originários da Amazónia, ou as bagas goji, originárias da China e do Tibete), mais ou menos calóricos (podem levar gelado de iogurte, por exemplo), mas sempre 100% naturais e com o cuidado de incluírem a fibra para tornar as bebidas mais nutritivas e saudáveis. 

Houve também o cuidado de reeditar a limonada, cartão de visita da antiga Merendinha, mas que agora leva na sua composição açúcar amarelo em vez de branco (custa €1,50 o copo), e de introduzir os shots, ricos em antioxidantes, de gengibre e wheatgrass (a erva de trigo), que saem por €1,80 cada um. Desta feita, deixei os shots para uma próxima e deliciei-me antes com um Alvorada (sumo de cenoura, maçã e gengibre).

Existem três medidas (355, 474 e 591 ml), variando os preços dos sumos e dos smoothies  também em função da sua composição (os primeiros andam nos €3/€4, o segundos nos €4/€5 o copo). A terminar, uma nota digna de registo: os copos usados são vegware — ou sejam são feitos com amido de milho, logo perfeitamente compostáveis — e a fruta e vegetais, sempre que possível, são biológicos.

Rua Nova do Almada, 45-A, tel. 913 122 334, de seg. a sáb, entre as 8.00 e as 19.00

17.5.11

fora de portas: sabores de verão no grande real villa itália (cascais)

[O Grande Real Villa Itália, hoje um hotel cinco estrelas em Cascais, já foi residência dos reis de Itália (foto D.R.)]
Quase no final de uma semana que já lá vai, uma proposta fácil de aceitar sem pensar muito: conhecer a ementa de Verão do La Terraza e do Belvedere, no Grande Real Villa Itália Hotel & Spa, em Cascais. E foi assim que, numa manhã a mais de meio, deixei para trás o Cais do Sodré, enfeitado de jacarandás em flor e a cheirar a morangos maduros, já só com olhos para a marginal. 

É em dias como este, com um gosto a matiné furtiva, que prazeres simples nos sabem melhor. Não que faltem sugestões ribeirinhas igualmente tentadoras no perímetro de Lisboa, mas ter uma costa assim, à mão de semear, é um luxo e um privilégio que, não tão raras vezes como isso, damos por barato. 

O Villa Itália, quase à saída de Cascais para quem segue em direcção ao Guincho, é um cinco estrelas relativamente recente que já serviu, em tempos idos, de residência aos reis de Itália, que, à semelhança de outras famílias reais europeias sem trono, viveram um doce exílio na "riviera" portuguesa. Talvez por isso, o estilo do hotel, ainda que com apontamentos contemporâneos, é mais clássico, mas informal q.b., o que só lhe fica bem quando um dos seus principais trunfos é, precisamente, a fabulosa vista para o mar.

[Terraço do restaurante Belvedere, a funcionar durante o Verão, a partir de Julho (foto D.R.)]

Do hotel e do spa, muito mais haveria a dizer, mas não foi isso que me trouxe aqui desta feita. Com a chegada do bom tempo, o Villa Itália abrirá, a partir de Julho, as portas do seu Belvedere, restaurante com terraço panorâmico; um pretexto mais do que válido para que o chef executivo Paulo Pinto, capitão da selecção olímpica de culinária, criasse um novo menu estival que se estende também, ainda que de outra forma, ao restaurante-bar La Terraza.

Num caso e noutro, o hotel, que se vem desdobrando em várias iniciativas (entre elas, um jantar-arraial que terá lugar na véspera de Santo António), quer ser levado a sério pela sua vertente gastronómica e que quem não está aqui hospedado pense nele como uma alternativa a outros bons restaurantes da Linha.

Não provei o novo cardápio do Belvedere, mas posso adiantar que possui um menu de degustação, às quartas-feiras, por €30/pessoa (sem bebidas, sendo que nos restantes dias, o preço médio é de €50). A proposta passa por ser mais gourmet e refinada, dividida por entradas (como tártaro de bisonte em flor de alcaparra ou carpaccio de vieiras), massas e risottos, pescados (como naco de atum na chapa com citronela), carnes (como carré de borrego assado com alecrim) e sobremesas (a parte mais generosa da carta).

Não é uma incursão na alta gastronomia — tão pouco há pretensões a esse nível, pareceu-me —, mas antes, e uma vez testada a fórmula anterior, uma tentativa de trazer uma maior sofisticação à cozinha de base mediterrânica. Por outras palavras, a ementa continua abordável para a maioria dos paladares, que reconhecem ingredientes e sabores, mas permite-se algumas inovações e um apuro da técnica.

[No topo, da esq. para a dir.: couvert; La Terraza; brusqueta de mozzarela; em cima, da esq. para a dir.: vieiras coradas com puré de ervilha; close-up do guardanapo; pastelinhos de baunilha com sorvete de maçã verde (fotos de JMS)]

No caso do La Terraza, posso falar com maior conhecimento de causa. Como preço médio estima-se um valor de €25 à cabeça (sem bebidas), mas há várias possibilidades, pois a ementa divide-se em couvert (entre €3 e €5), tapas frias (todas a €8), tapas quentes (todas a €12) e sobremesas (todas a €6) — existem outras sugestões, mas esta é a espinha dorsal do menu estival do La Terraza.

No couvert, provei o pão de azeitonas e o queijo de ovelha amanteigado, que é sempre um bom entretém de palato. Seguiu-se, nos frios, uma brusqueta com mozzarela de búfala, rúcula e foie gras, que faz perfeitamente as vezes de um prato ligeiro; e umas vieiras coradas com puré de ervilha e bacon, nos quentes, que achei interessante, mas que não me convenceu por inteiro; a finalizar, nas sobremesas, pastelinhos de baunilha com sorvete de maçã verde e creme de frutos vermelhos, bom de comer, mas não tão bem conseguido visualmente. Aliás, se me é permitida a observação, eu diria que, de uma forma geral, achei o empratamento — porque os olhos também comem — um pouco démodé.  Podem conseguir um efeito melhor, tenho a certeza, se optarem por algo mais clean, sem precisar de ser minimal. 

[Vinhos Senhor d'Adraga, produzidos pela Quinta de Santa Maria, em Colares (fotos D.R.)]

Interessante foi também a parceria iniciada com os vinhos Senhor d'Adraga, produzidos pela Quinta de Santa Maria, em Colares. São vinhos muito jovens ainda, mas que contam com incentivos de peso como a recente medalha de prata conquistada pelo branco de 2010 no Concurso Mundial de Bruxelas, e se revelam particularmente intensos devido à sua forte mineralidade (sente-se a influência marítima). O seu aroma frutado engana um pouco, pois na boca revelam-se ácidos. Não nos conquistam ao primeiro gole, nem perduram muito na boca, mas não nos deixam indiferentes e têm personalidade. Um caso a seguir.

Restaurante-bar La Terraza | Grande Real Villa Itália Hotel & Spa, rua Frei Nicolau de Oliveira, 100, tel. 210 966 000, todos os dias, entre as 12.30 e as 22.30
Restaurante Belvedere | Grande Real Villa Itália Hotel & Spa, rua Frei Nicolau de Oliveira, 100, tel. 210 966 000, de ter. a sáb., entre as 19.30 e as 22.30 (a partir de Julho, durante o Verão)

3.5.11

bistro 100 maneiras

[O Bistro 100 Maneiras assentou arraiais no largo da Trindade, ao Bairro Alto, onde se divide por dois andares (em cima, a sala de baixo; abaixo, a sala de cima (fotos D.R.)]

Há coisa de uma semana, este post do crítico espanhol Carlos Maribona, que muitos seguem religiosamente no jornal ABC e no blog Salsa de Chiles, sobre o panorama actual da restauração em Lisboa suscitou inúmeras conversas cruzadas nas redes sociais. Uma delas, em que me acabei por envolver voluntariamente via Twitter — embora insista em reafirmar que não faço, nem pretendo fazer, crítica gastronómica, limitando-me antes ao exercício de informar e de partilhar as minhas impressões pessoais —, abordava a forma como a crise está também a reflectir-se — como não — numa diminuição drástica de clientes dispostos a pagar (bem) pelos prazeres da boa mesa em Portugal, o que reduz significativamente as chances de Lisboa atingir maior protagonismo na cena mundial da dita "alta" gastronomia — a revista Restaurant acabou de anunciar a lista dos melhores restaurantes do mundo em 2011, e o Vila Joya, no Algarve, foi o único português admitido a bordo, na 79ª posição num total de 100 eleitos.


Claro que esta realidade não tem só a ver com falta de dinheiro e de prioridades; passa também, e muito, pela falta de predisposição. Gostamos muito de comer bem, de conviver à mesa, mas não adquirimos necessariamente o hábito de pagar muito para o fazer a um nível mais sofisticado e elaborado. Chegados aqui, torna-se mais fácil compreender o "fenómeno" relativamente recente da abertura em catadupa — o que baralha alguns, que vêem nisso uma contradição aos tempos de contenção — de restaurantes mais pequenos e comerciais, pilotados por chefs que já provaram ser capazes de voar mais alto em outros pousos.

[Ljubomir Stanisic e uma das suas criações no Bistro, o hambúrguer de salmão (fotos de Fabrice DeMoulin)]

Não é propriamente o caso do Bistro 100 Maneiras do sérvio Ljubomir Stanisic, mas há tempo suficiente entre nós para já ter intuído muito do nosso código genético, se bem que, arrisco-me a dizer, também o é até certo ponto. Explico melhor. Ljubomir mantém o restaurante 100 Maneiras, um dos primeiros em Lisboa a introduzir um menu fixo de degustação sem carta (€40 por pessoa, sem bebidas, sendo famosos "clássicos" como o Estendal de Bacalhau), mas apostou no Bistro, que recuperou o espaço do antigo Bachus, para chegar a um público mais vasto.


Quem vir nisso motivo para desconfiança, adianto desde já que, no Bistro, nem a qualidade saiu a perder, nem o preço é assim tão mais baixo (feitas as contas, com vinho, dificilmente se sai de lá a pagar menos do que €35 por pessoa). Ljubomir, que tem sabido muito bem granjear simpatias e gerir as novas plataformas para se dar a conhecer — sendo bastante providencial a colaboração de Mónica Franco, ex-editora da revista Evasões —, teve também a inteligência de ir repescar certos utensílios portugueses — o pão do couvert vem em sacos de pano, a comida chega-nos à mesa em placas de xisto, em tachos e frigideiras de cobre e as sopas são servidas a partir de bules esmaltados —, demonstrando, ao mesmo tempo, tino e bom senso ao praticar uma cozinha contemporânea e criativa que, em vários casos, resulta da releitura do receituário nacional de petiscos (da secção "Para Corajosos" costumam constar molejas, túbaros ou passarinhos fritos).


Dividido por dois andares, onde predomina o branco e saltam à vista artigos directamente importados da loja A Vida Portuguesa, o Bistro é, em tempo de crise, um sucesso. E para isso não basta estar na moda — e a marca 100 maneiras está, disso não há dúvidas —, é preciso também acertar no ambiente (pode ou não gostar-se, mas o espaço funciona), no serviço (simpático e rápido, mesmo numa noite de casa cheia, com gente à espera) e, claro, no cardápio. O do Bistro consegue ser inesperado e divertido (até nos nomes das secções e dos pratos), equilibrando valores seguros como o risotto de cogumelos e camarão ou as bochechas de Porco Preto com novidades como o hambúrguer de salmão e parcerias garantidas como o Melhor Bolo de Chocolate do Mundo. E tem vindo a mudar, aqui e ali, de forma a manter-se afinado com o gosto e apetites de quem lá vai e, por norma, repete a dose.


Largo da Trindade, 9, tel. 210 990 475 | 910 918 181, de seg. a sáb., entre as 18.00 e as 02.00
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28.4.11

extra: jaime pérez no eleven (9 a 15-05)


[Panorâmica do restaurante Eleven, no alto do Parque Eduardo VII, em Lisboa, e o chef catalão Jaime Pérez fotografado no restaurante Vistas, Algarve (fotos D. R.)]

Não chega a uma hora o trajecto entre Albufeira e Vila Nova de Cacela. Por oposição a Cacela Velha, que permanece encantada a pairar sobre a ria Formosa, a Nova cresceu junto à estrada e à linha de comboio. A bem da verdade, ela é apenas um ponto de referência maior para encontrarmos Sesmarias, a localidade onde, ao abrigo dos olhares curiosos, se ergue, rodeado de um magnífico campo de golfe e primorosos jardins mediterrânicos, o resort Monte Rei.


Por esta altura do texto, quase aposto, já se estão a perguntar o porquê de, num blog dedicado a Lisboa (e arredores), me estar a afastar tanto do foco principal. Mas lá chegarei, prometo. Retomando o fio à meada, escrevia eu que no final do Verão passado fui até ao Algarve semi-profundo, entre a serra e o mar, para conhecer, no já citado resort, o restaurante Vistas e a excelência de Jaime Pérez, que passou pela “escola” de Ferran Adrià, Sergi Arola ou Oriol Balaguer e trabalhou no Ritz Carlton Arts Hotel, em Barcelona.


Ainda sem estrelas Michelin, a alta cozinha deste chef catalão de 37 anos não tem paralelo, até ver, naquele extremo algarvio. E, no entanto, não é uma novidade; ou melhor, até é, pois existe há cerca de quatro anos mas, pelo facto de ficar num resort, de esse resort trabalhar com clientes estrangeiros e de estar afastado do pólo Albufeira-Vilamoura, acabou por não ter até hoje a divulgação esperada. E merece. Peréz, como chef executivo, proporciona no Vistas uma experiência de fine dining. O termo, algo pomposo mas preciso, rapidamente é descodificado pela simplicidade de Peréz, que pratica uma cozinha de autor, mediterrânica mas assumidamente ibérica. 

 
[Espuma de batata, servida como amuse-bouche, e lombo de vaca Charolês (fotos de JMS)]

A boa nova é que, pelo menos na semana de 9 e 15 de Maio, não é preciso ir até ao Algarve para degustar as suas criações. Na mesma linha do "se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé", a cozinha de Pérez será dada a provar a quem estiver por esses dias em Lisboa graças a uma parceria como o restaurante Eleven


Firme no alto do Parque Eduardo VII, com uma vista que não é para todos, o Eleven, comandado pelo simpático e talentoso chef Joachim Koerper, está apostado em fazer de 2011 um ano ímpar, desdobrando-se em iniciativas gastronómicas, e a provar que há vida depois de ser ter perdido uma estrela Michelin — um duro revés, mas que não é, não pode ser, o fim do mundo.


A parceria com Jaime Pérez, como chef convidado, é uma delas. A fórmula escolhida assenta num almoço "executivo", totalmente a cargo de Pérez, que custará €35 por pessoa e incluirá amuse-bouche + prato de peixe + prato de carne + sobremesa (bebidas à parte), e num jantar de degustação, a quatro mãos (Koerper e Pérez), que custará €89 por pessoa e incluirá amuse-bouche + seis pratos, com sobremesa (bebidas, mais uma vez, à parte).

[Tártaro de atum com gelado de wasabi e chocolate em diferentes texturas (fotos D.R.)]

Tive oportunidade de provar, numa apresentação prévia, o menu de almoço e posso falar do que vi e saboreei. A abrir, espuma de batata com ovo escalfado e aroma de trufa, agradável à vista e ao palato; seguiu-se, no peixe, um tártaro de atum com gelado de wasabi e dois molhos, soja e maracujá, o meu preferido pelo contraste dos molhos e pela forma como o wasabi, em vez de invasivo, ficou acertadamente reduzido a uma nota de frescura que se casa muito bem com o atum cru; no prato de carne, lombo de vaca Charolês com tartelete Wellington, saboroso e bem executado, mas sem grande surpresa; e a terminar — se não contarmos as mignardises servidas com o café —, chocolate em diferentes texturas (sorvete, mousse, crocante, biscoito e molho), que perdura na boca.

Semana Gastronómica com o chef Jaime Pérez, de 9 a 15 de Maio, rua Marquês de Fronteira, Jardim Amália Rodrigues, 1070, tel. 213 862 211, almoços de seg. a sáb, entre as 12.30 e 15.00, e jantares de seg. a sáb., entre as 19.30 e as 23.00
Experimente também fazer a sua reserva através da Best Tables, aqui 

27.4.11

trigo latino

[Ambiente retro, sem chegar a ser castiço, é a tónica dominante do Trigo Latino que ocupa as instalações de uma antiga dependência bancária (fotos D.R.)]

Quem nunca desesperou na hora de achar um restaurante à altura das expectativas e necessidades de um jantar de grupo que atire a primeira pedra. A questão torna-se tão mais complicada quando à disponibilidade e localização somamos ainda outros quesitos básicos como um preço aceitável e um menu capaz de saciar, e satisfazer, gregos e troianos.


Serve isto tudo para dizer que, apesar de ter as portas abertas desde Julho de 2009, um jantar recente de aniversário foi o pretexto para ficar a conhecer o Trigo Latino. Há quem se baralhe e hesite entre dizer que fica no bairro da Sé ou de Alfama. Certo mesmo é que se encontra — ou melhor, encontrei-o eu numa noite de chuva forte, em que caminhava quase às cegas e sem ver por onde punha os pés — numa paralela à avenida Infante Dom Henrique, na esquina da rua e do largo que respondem pelo mesmo nome: Terreiro do Trigo.


Antiga sede de um banco, como o comprova até hoje a caixa-forte, a sala apresenta-se com uma decoração intencionalmente retro que dá ares de café de tertúlia ao restaurante. Chão preto e branco, mesas quadradas e cadeiras de madeira, painéis pintados de verde a cobrir meia parede, deixando o resto livre para acomodar um sem-número de quinquilharias, entre fotografias e objectos, que nos remetem para outras histórias. O todo resulta à vista, conseguindo ser, ao mesmo tempo, acolhedor e confortável.


Na ementa, a que o crítico José Quitério deu o seu aval, as entradas, as saladas, as massas frescas, risottos e bruschettas, a carne, o peixe e as sobremesas alinham por uma tónica contemporânea que outros preferem descrever como cozinha de raiz latina com um toque de fusão. Mas dela falaria se tivesse comido à la carte. Não foi o caso. Num jantar de grupo nada como optar pelo menu de grupo que, a €25 por cabeça (pode ser negociado para €20 se se abdicar de um prato), inclui couvert (bom o patê de azeitonas), bacalhau desfiado com presunto gratinado e queijo mozzarella, peito de frango recheado com farinheira e, a encerrar, brownie de chocolate com bola de gelado ou gelado artesanal com duas bolas à escolha.


Um menu pré-definido nunca é o ideal para avaliar o talento de um chef, por isso não o farei, mas direi que cumpriu e que satisfez sem chegar a ser banal, que é um risco que se corre nestas coisas. Onde o jantar falhou, na minha perspectiva e de outros convivas, foi no capítulo bebidas. A casa, nas suas contas, calcula uma média de meia garrafa de vinho por pessoa (um tinto alentejano bastante razoável) ou meio jarro de sangria (esta, de rosé e açucarada, veio a revelar-se muito sem graça) ou dois refrigerantes ou ainda duas cervejas, fora as águas e café. Num jantar de família, talvez chegue; num jantar de amigos, acaba por se revelar insuficiente e dar azo à situação sempre desagradável, mas nem por isso inédita, de ter de pagar mais do que o previsto. Fora este pequeno-grande detalhe, nada mais a acrescentar ou a apontar.

Largo Terreiro do Trigo, nº1, tel. 218 821 282, almoços de seg. a sex., entre as 12.30 e as 14.30, e jantares, de seg. a dom., das 19.30 às 00.00 

20.4.11

pastel de belém vs. melhor pastel de nata 2011

[Descubra as diferenças entre os pastéis de Belém (no topo, à dir., e em cima, à esq., fotos D.R.) e os pastéis de nata da Chique de Belém, eleitos os melhores de 2011 (no topo, à esq./foto JMS, e em cima, à dir./foto de Bruno Rezende)]

Não sendo um profundo entendido na matéria, sou um apreciador confesso, e assumido, do pastel de nata em quase todas as suas variantes e cambiantes. O que não quer dizer que seja incapaz de distinguir o bom do acessório ou que me contente com gato por lebre. 


Vem isto a propósito da recente eleição, pela Confraria do Pastel de Nata, do melhor exemplar digno desse nome em 2011, tendo cabido à pastelaria Chique de Belém — como anunciei aqui previamente — a honrosa distinção.


Ao lado do antigo Museu dos Coches — e virada para o novo e não isento de polémica, com desenho do prémio Pritzker Paulo Mendes da Rocha (arquitecto brasileiro), que se ergue a olhos vistos —, a Chique de Belém está muito longe de ser uma novidade para quem frequenta o bairro lisboeta; do mesmo modo, há muito que se comentava a boa fama dos seus pastéis de nata. A distinção vem apenas gerar uma maior curiosidade entre os que não conheciam e que agora podem ficar na dúvida entre jogar pelo seguro e ir directo à Antiga Confeitaria de Belém, que fica apenas a uns metros de distância, ou dar o benefício da dúvida à Chique.
O meu palpite é que, passado o efeito-novidade, tudo volte ao que sempre foi, ou seja, os pastéis de Belém, conhecidos em todo o mundo, continuarão imbatíveis e a Chique continuará a não ter mãos a medir para a sua clientela fiel.


Sempre se disse que, por muito bom que seja o pastel de nata, este jamais se confunde com o pastel de Belém, cujo sabor é, de facto, diferente. Confesso que já comi, e não devo ser o único, alguns pastéis de nata que nada ficam a dever — em termos de consistência da massa folhada, textura e gosto do creme ou tempo certo de forno, só para citar os quesitos óbvios de avaliação — aos pastéis de Belém, mas, reconheço, o sabor nunca é igual.


Munido das melhores intenções — mas desprovido de qualquer rigor científico —, um dia destes passei por Belém e fui a um tira-teimas. A conclusão foi a de que a massa, estaladiça, é mais fina no pastel de nata da Chique, mas a dos pastéis de Belém é mais saborosa; no creme, não consigo notar diferença assinalável na textura, apenas no gosto (sendo de frisar que o nata da Chique está ao melhor nível daquilo que se pode esperar do género, e logo uns bons pontos acima da média dos comuns natas que se encontram um pouco por todo o lado).  


Os dois chegaram-me às mãos quentes e fiz questão de os degustar da mesma forma, que é como quem diz polvilhados com canela (dispenso o açúcar em pó), pelo que, surpresa, surpresa, só mesmo a conta final: o pastel de Belém (€0,95) é mais barato do que o nata da Chique (€1,05).

Antiga Confeitaria de Belém | Rua de Belém, nº 84 a 92, tel. 213 637 423, todos os dias, entre as 8.00 e as 23.00 (até às 00.00 de Junho a Setembro)
A Chique de Belém | Rua da Junqueira, 524, tel. 213 637 995, todos os dias, entre as 6.00 e as 21.00
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