Mostrar mensagens com a etiqueta Restaurantes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Restaurantes. Mostrar todas as mensagens

19.12.11

momo

[A entrada do MoMo, no Casino de Lisboa (foto de divulgação)]


A oriente, inaugurado em finais de Novembro no Casino de Lisboa, há um novo restaurante que se diz pan-asiático e não esconde ao que veio.

Confesso que quando ouvi pela primeira vez o seu nome, MoMo, fiquei intrigado... Tinha lido que o empresário argelino Mourad Mazouz, há muito radicado na capital britânica, havia decidido exportar o conceito do seu Momo londrino até Beirute e, de repente, quase acreditei que Lisboa pudesse ter sido eleita para nova réplica.

[A decoração é assinada pelas arquitetas Cristina Santos Silva e Ana Menezes Cardoso (foto de divulgação)]

Não foi o caso.

Trata-se, tão-só, de uma coincidência — já agora, o nome remete-nos para os populares dumplings, bolinhos de massa de pão cozidos a vapor sobre um caldo de carne ou legumes —, sem que isso cause algum constrangimento ou melindre ao grupo Lágrimas Hotels & Emotions. 

[Pé alto e grandes vidraças criam um espaço mais impactante (foto de divulgação)]

Com provas dadas em restaurantes e hotéis de norte a sul de Portugal, este grupo viu no espaço vago do último andar do Casino de Lisboa, no Parque das Nações,  uma oportunidade de negócio e, num tempo recorde, tratou, sem cair no explicitamente óbvio, de recriar ali uma atmosfera oriental condizente com o conceito. A boa vista é outro dos seus trunfos.

[Os vasos chineses, à entrada, vieram do Hotel Infante Sagres (foto de divulgação)]

Preto e encarnado são os tons dominantes. Miguel Júdice, o CEO do grupo, acompanhou de perto todo o processo, mas quem assina a decoração é a dupla de arquitetas Cristina Santos Silva e Ana Menezes Cardoso, que viveram um bom tempo em Macau. Foi dele, porém, a ideia — e o risco assumido — de trazer dois enormes vasos chineses, legítimos, do Hotel Infante Sagres, no Porto, para dar outra imponência à entrada do MoMo.

[O layout moderno contrabalança os toques orientais da decoração (foto de divulgação)]

Claro que o MoMo não pode ser alheio ao facto de se encontrar num casino e de fazer parte das suas ofertas. Isso obriga-o a um ritmo específico e explica a aposta no conceito pan-asiático, exótico quanto baste, mas abrangente e simplificado o suficiente para proporcionar, em diferentes níveis, uma viagem gastronómica que pisca assumidamente o olho aos que ainda não ousaram render-se por completo às delícias da cozinha oriental.

[A boa vista é outro dos trunfos do MoMo (foto de divulgação)]

Como num cruzeiro com diferentes escalas num mesmo itinerário, o MoMo propõe-se, ao misturar na carta pratos de procedências várias como a Tailândia, China, Vietname ou Índia, dar a provar e a conhecer — sem sair da zona de conforto, mas com toque autoral — novas combinações, sabores e texturas. Para quem nunca provou, funciona como uma iniciação; para quem já ousou ir além, não será tão inovador, mas apresenta uma relação custo-benefício bem interessante.

[Paulo Morais, o chef do Umai, foi quem desenhou a carta do MoMo (foto de divulgação)]

Para isso a contribuição de Paulo Morais, que desenhou e testou a ementa, foi determinante. À frente do Umai, com Anna Lins, o chef é visto entre os seus pares como uma referência incontornável quando se fala de cozinha asiática em Portugal, pelo que muitas vezes é chamado a prestar consultadoria em outros projetos. Foi o que aconteceu aqui: ele não está no comando do MoMo, mas as criações são suas.

[O bacalhau, um dos pratos mais felizes do MoMo (foto de divulgação)]

Entre tudo o que pude ali degustar num jantar de apresentação — e foi muita coisa! —, ficou-me sobretudo na memória um prato assinado por Morais que tem tudo para agradar e surpreender os amantes do fiel amigo: bacalhau fresco assado com molho de miso, yakimeshi e salada de legumes assados. É daquelas combinações que, embora com o seu quê de inusitado, resultam num final feliz.

[O caranguejo de casca mole crocante (foto de divulgação)]

Também apreciei o caranguejo de casca mole crocante, uma iguaria bastante comum no Brasil, e o facto de algumas sobremesas do Grupo Lágrimas que já se tornaram "clássicos", como o pão-de-ló ou o crème brûlée, se apresentarem revisitadas e em novas companhias. Nos vinhos, à falta de asiáticos credíveis, optou-se por vinhos europeus (Portugal incluído, claro) capazes de complementar e enaltecer o equilíbrio entre o doce, o salgado e o picante deste tipo de pratos.


[Uma cozinha de fusão agradável à vista e acessível à maioria dos palatos (foto de divulgação)]


Os preços à la carte são acessíveis, com entradas na ordem dos €10-€12, pratos a menos de €20 e sobremesas entre os €4 e €8. Vale, no entanto, a pena destacar a fórmula dos menus-expresso, pensados para quem está com pressa de jogar ou ver um espetáculo e quer ser servido em 30 minutos, que saem por €25 em cinco combinações possíveis:

Menu Japão: camarão tigre e novilho grelhado com yakimeshi e legumes salteados 
Menu Tailândia: caril verde com peixe e marisco e arroz de jasmim; som tom Thai; salada de papaia verde 
Menu Índia: vieiras em espuma de caril; pão naan com chutney; salada de arroz tufado com ervas aromáticas; kofta de borrego 
Menu Vietname: rolo de papel de arroz com legumes; phô bó (caldo de carne); salada de manga e camarão 
Veggie Pan Asian: couve pak choi salteada; mini crepes de legumes; beringela chinesa grelhada com molho de miso; pad thai (massa salteada com tofu e legumes)

[O sashimi, a par do sushi, está presente em força no menu (foto de divulgação)]

A considerar igualmente, o menu de degustação, com sete pratos e uma sobremesa escolhidos pela casa, que sai por €42. O MoMo pretende ainda ser uma opção fiável para quem quer simplesmente comer sushi e sashimi.

Casino de Lisboa, Alameda dos Oceanos, Parque das Nações, de ter. a sáb., entre as 19.30 e a 01.00. Por se encontrar dentro do casino, o MoMo está aberto apenas a maiores de 18 anos.

15.12.11

cantinho do avillez

[É assim o Cantinho do Avillez, ao Chiado (fotos de divulgação)]

E ontem, quem segue José Avillez no Facebook ficou a saber que, entre bifanas, entrevistas, conferências de imprensa e fotos com António Lobo Antunes, Anthony Bourdain, o homem de quem tanto se falou e escreveu nas últimas semanas a propósito do "No Reservations" que veio gravar a Lisboa para ir ao ar em Abril, arranjou tempo para dar o ar da sua graça no Cantinho do Avillez.

Foi o próprio chef — ou quem lhe faz a assessoria — que não resistiu a partilhar uma foto da foto no seu mural. Não é para menos. Bem ou mal, todos parecem ter alguma coisa a dizer sobre Bourdain, pelo que não custa nada aproveitar a "boleia" mediática. 

[José Avillez no seu Cantinho (foto de divulgação)]

Não que Avillez precise. Com casa cheia (no sábado passado, só consegui reserva para o turno das 22.30 e ainda assim com alguns dias de antecedência) e a imprensa toda à sua roda, só os muito distraídos é que ainda não deram pelo seu Cantinho num dos recantos mais sossegados do Chiado, pouco abaixo do São Carlos.


[Arquitetura de Ana Anahory e decoração de Felipa Almeida (foto de divulgação)]


Entre o pronto-a-comer das empadas (já aqui devidamente testadas e comentadas) e a papa fina do tão aguardado Belcanto — também no Chiado, paredes-meias com o Largo do chef Miguel Castro e Silva, passei à sua porta dias atrás e não me pareceu para já, mas posso estar enganado... —, o Cantinho é assim, à primeira vista, uma espécie de meio-termo.


[A instalação de Joana Astolfi tornou-se a "imagem" do Cantinho (foto de divulgação)]


E que ninguém leia nas entrelinhas um reparo negativo.


[Procedências diversas para um ambiente cheio de detalhes (foto de divulgação)]


O Cantinho é, assumidamente, um espaço de cozinha simples, mas com toque de mestre, destinado a servir pratos do dia-a-dia de forma criativa, em ambiente descontraído e com uma boa relação qualidade-preço.


[Talheres da Costa Nova e pratos do pão de um serviço de louça criado por Bordallo Pinheiro, são vários os apontamentos portugueses (foto de divulgação)]


E, posso adiantar-me desde já, cumpre o seu objetivo perfeitamente. Poderá até defraudar alguns, que possam ir ali ao engano à procura do que certamente só irão encontrar no Belcanto, mas acho que ninguém poderá dizer que não vale o que custa.


Arrisco mesmo dizer que vale mais do que custa. Porque, a verdade é esta, não é caro para aquilo a que se propõe (e cumpre).


Avillez, escrevi-o antes, não tem pruridos em colocar o seu nome em projetos mais comerciais. É novo, talentoso e ambicioso, mas é também um homem de negócios. Já o provou e eu não vejo mal nisso. É até uma das coisas que admiro e que me ajudam a equilibrar a sensação de que, independentemente do seu inegável talento, é muitas vezes levado "ao colo" pela crítica lusa (e não só).


Avillez, é um facto, agrada. 


O Cantinho, como o nome já indicia, é pequeno, mas não atrofia. Depois da entrada, e antes da cozinha, a mesa comprida mais desejada, mas que resulta apenas para grupos, fica junto ao nicho onde a artista plástica Joana Astolfi encavalitou peças de outros tempos que todos reconhecemos. A memorabilia pegou e é hoje o cartão de visita da casa.


À esquerda, para quem entra, a única sala propriamente dita, onde os detalhes pensados por Avillez e pela decoradora Felipa Almeida saltam ou não à vista. Depende do "olho" e da informação que se leva.


Candeeiros vintage e cadeiras desirmanadas. O recurso não é novo, mas ajuda ter, entre peças com ar Ikea e outras arrematadas na Feira da Ladra ou em leilões do eBay, umas quantas reproduções coloridas da cadeira DSW de Charles & Ray Eames.


Há ainda uma parede que parece ser de madeira demolida, mas que é afinal papel trompe-l'oeil. Pra valer, gostei mesmo muito dos pratos e talheres da Costa Nova, dos pratos do pão do serviço "Couves" da Bordallo Pinheiro, das pequenas assadeiras em ferro da Staub ou até de algumas peças desenhadas por Avillez.


Pode parecer que estou a dar demasiada atenção aos detalhes. Porventura, até estou. Mas eles são importantes para entender, e apreciar, aquilo a que Avillez se propõe na sua carta.


A profusão de petiscos na mesma, bem como de entradas que se prestam a ser partilhadas, poderiam levar-nos a pensar que se trata de mais uma tasca ou taberna moderna, mas não é por ai. Os petiscos portugueses, mais ou menos tradicionais, estão lá, mas há também receitas familiares, criações novas e outras claramente influenciadas por viagens.


[A farinheira com crosta de broa e coentros (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


Nas entradas, resisti às vieiras marinadas com creme de abacate (que provara antes, na edição deste ano do Peixe em Lisboa) e aos peixinhos da horta, e partilhei à mesa uma dose de farinheira com broa e coentros (gosto de farinheira do jeito que for, mas esta versão fica deliciosamente crocante) e outra de empadinhas de perdiz, bacon e cebolinha (massa boa, seca e fina: recheio aveludado e apaladado).


[As empadinhas de perdiz, bacon e cebolinha (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


Antes disso, o couvert, composto por pães da Quinoa (a padaria artesanal do Chiado, de quem falei aqui, é uma parceira), azeitonas, manteiga e paté de tomate (delicioso!), entreteve muito bem o nosso palato.


[Os ingredientes do Prego MX LX (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


Como prato, não resistimos e escolhemos um que, de tão comentado, se tornou um "must have" da casa: o famoso prego MX LX. Inspirado pelos tacos mexicanos, Avillez idealizou um esquema que mata dois coelhos de uma cajadada só. A ideia é simples: cada um monta o seu, dispondo para isso de tirinhas de carne de vaca, servida numa frigideira, e de ingredientes como malagueta, guacamole, lima ou cebola roxa, servidos em tacinhas, que devem depois ser enrolados a gosto em tortillas de milho.


[Cada um monta o seu prego nas tortillas de milho (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


É o tipo de coisa que resulta em cheio e que muitos vão querer experimentar em casa.


[Sorvete de limão com manjericão e vodca (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


Para sobremesa, um sorvete: cubos de limão com manjericão e vodca, só porque precisávamos de algo para limpar o palato, que fosse ao mesmo tempo leve e refrescante. Touché.


[Nos vinhos, um branco e um tinto produzidos por Avillez e José Bento dos Santos (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]


Não cheguei a experimentar nenhum dos cocktails que Avillez se gaba de ter na carta, mas prestei atenção aos vinhos. Os preços começam nos €12 por garrafa, sendo que há igualmente opções a copo. Escolhemos o tinto JA, que resultou de uma parceria de Avillez com o gastrónomo José Bento dos Santos. Bastante agradável de beber e bom preço: €14 a garrafa.


Na hora do café, Avillez confia num outro parceiro de peso, a Nespresso. Sei que é, cada vez mais, recorrente nos restaurantes, mas não me conformo. Não troco nenhum Nespresso por um bom café expresso tirado como deve ser. 


No final, uns muito razoáveis €20 por cabeça, gorjeta incluída, e satisfação generalizada de quem me acompanhava nessa noite.


O próximo jantar, já deixámos apalavrado, será no Belcanto, assim abra ele em breve.

Rua dos Duques de Bragança, 7, tel. 211 992 369, almoços, de seg. a sáb., entre as 12.30 e as 15.00; jantares, de seg. a sáb., entre as 19.30 e as 00.00

26.11.11

fora de portas: rota das estrelas na fortaleza do guincho, parte 2 | fotoblog de uma noite memorável

[©paulo barata, todos os direitos reservados)]
Este brinde, com toda a equipa do restaurante da Fortaleza do Guincho, aconteceu a 18 de Novembro, menos de uma semana antes do lançamento oficial da edição de 2012 do guia vermelho da Michelin, por ocasião dos dois jantares que foram ali servidos a pretexto de mais uma Rota das Estrelas.
[Sentados, da esq. para a dir.: Neuner, Farges e Ortu; de pé: Broda (©paulo barata, todos os direitos reservados)]
Nesse dia, ou melhor nessa noite e na que se lhe seguiu, as estrelas eram, além de Vincent Farges (chef executivo da Fortaleza), o austríaco Hans Neuner do Ocean (Vila Vita, Algarve) e os franceses Sébastien Broda (Le Park 45, Cannes) e Jean-Luc Ortu (JLO Consulting), mas claro que se falou, e muito, das outras, as Michelin, e da expectativa em torno delas.
[Hans Neuner em ação na cozinha do Guincho (©paulo barata, todos os direitos reservados)]
Hans Neuner, o pequeno-grande chef, não sabia na altura, mas daí a dias teria motivos de sobra para pular de alegria (e foi o que fez, literalmente, segundo relatos fidedignos). De uma estrela Michelin passou a duas, feito notável apenas conseguido até à data, no que a Portugal diz respeito, pelo Vila Joya (Albufeira/Algarve). E foi assim que o Ocean orquestrado por Neuner, instalado num resort algarvio que muitos veem apenas como "coisa para turistas alemães", se elevou a "restaurante de excelência que vale o desvio".
[Farges em noite solidária com a associação Operação Nariz Vermelho (©paulo barata, todos os direitos reservados)]
No Guincho, a discrição e a cautela prevaleceram até ao fim, mas acreditou-se que poderia ser desta. Não foi. Ainda não foi. A maioria dos restaurantes estrelados pela Michelin, é caso recorrente, pena anos a fio para subir de patamar, mas a espera da Fortaleza veio a revelar-se particularmente longa. A primeira estrela chegou já em 2001 e, desde então, nunca foi perdida.
[Os bastidores da Rota das Estrelas no Guincho (©paulo barata, todos os direitos reservados)]
Por que será então que tarda tanto a chegar a segunda estrela se a Fortaleza tem dado provas da sua constância? Será que se tem limitado a fazer mais do mesmo? Que não tem inovado, ou "provocado" (a nova palavra de ordem na cozinha), o suficiente para voar mais alto? A resposta não serei eu a dá-la, mas ainda assim permito-me arriscar uma teoria: a Fortaleza precisa tornar-se mais conhecida fora de portas, de atrair imprensa estrangeira especializada e de gerar um maior foco de interesse à sua volta. Já o faz, e bem, em Portugal, mas o nosso país não chega — por mais que a cozinha de Farges esteja a viver um dos seus momentos mais inspirados e consistentes.
[Farges, Broda e Ortu conferenciam na cozinha durante a preparação do jantar (©paulo barata, todos os direitos reservados)]
E isto vale também para outros chefs e restaurantes à beira-mar plantados. Portugal tem, na edição de 2012 do guia Michelin, 12 restaurantes com 14 estrelas (mais duas do que em 2011). Alvo de duras críticas pelos seus critérios nem sempre muito claros, a Michelin foi particularmente generosa com Portugal num ano em que praticamente só se fala de nós por conta da malfadada crise e em que a maioria dos críticos gastronómicos internacionais que nos visita nunca deixa de fazer referência, com razão, ao facto da nossa alta cozinha estar a padecer de uma certa estagnação (sobretudo porque nos falta, neste momento, uma clientela suficientemente expressiva que queira pagar por ela).
[A azáfama na cozinha era grande durante o jantar e tudo podia ser acompanhado na sala graças a dois enormes ecrãs (©paulo barata, todos os direitos reservados)]
Na imprensa estrangeira, pouco ou nada se tem falado das estrelas lusas. Fora de Portugal, não tenhamos ilusões, Espanha, e a ira dos espanhóis contra os inspetores da Michelin, chamou a si todas as atenções, sobrando a impressão de que o guia é, afinal, referente a um só país e não a dois — até mesmo os jornalistas brasileiros (o Brasil deve ganhar, finalmente, uma edição do guia para chamar de sua no próximo ano) relataram as venturas e desventuras das estrelas espanholas como se fossem suas, ignorando por completo o lado luso da questão.
[O caviar que viria depois a ser empratado com o pregado (©paulo barata, todos os direitos reservados)]
Estamos acostumados a que seja assim, eu sei. Mas, porventura, estamos acostumados demais. Claro que Espanha e a cozinha espanhola, pela sua envergadura e peso, jogam num outro campeonato, mas isso não valida que nos estejamos a promover mal. Somos um país pequeno, com pouca margem de manobra até ver e muito a fazer (e a aprender), mas precisamos contrariar a ideia que se instalou fora de portas — e que me incomoda, sou franco, ver reproduzida à exaustão em mercados que nos são essenciais, como o espanhol e o brasileiro — de que não se passa nada de verdadeiramente interessante, ou digno de nota, na alta cozinha praticada por cá.
[Menu servido nas duas noites da Rota das Estrelas no Guincho (clicar na imagem para aumentar e ler)]
Fecho o longo parêntesis e volto à noite das outras estrelas. Já tinha dado um cheirinho do que se passou por lá neste post, mas prometi mostrar mais. O prometido é devido. Ao todo foram servido dez pratos, ou seja dois por chef mais duas sobremesas a cargo de Daniel Pinto Marques, o novo titular da pastelaria na Fortaleza (falei antes da saída de Fabian Nguyen) e os vinhos escolhidos pelo escanção premiado Inácio Loureiro.
Antes do jantar, diferentes amuse-bouches preparados pelos chefs foram servidos, regados a champanhe, mas eu gostei especialmente das tacinhas com legumes em miniatura (acima), crocantes e deliciosos, produzidos na Quinta do Poial, um dos fornecedores de eleição de Farges.
Além dos entreténs de palato, houve ainda degustação de caviar, de foie gras, de chocolate Valrhona e de presunto ibérico, este último servido a preceito por Zacarías Píriz Estévez (acima), mestre-cortador (só existem 16 no país vizinho) e faca de ouro espanhol.
Sentados à mesa, coube a Farges abrir os serviços com uma primeira entrada: peito de codorniz assado, miúdos cozinhados com maçã e chalotas aciduladas, e coxa em rillette (semelhante a patê) com foie gras de pato, Amlou (molho marroquino) de nozes e avelãs com óleo de Argan.
A segunda entrada veio assinada por Neuner: barriga de atum com Hollandaise de ouriços, Salicórnia e melancia. As duas foram acompanhadas por um branco Quinta dos Carvalhais-Encruzado 2010.
Não é todos os dias que se tem Broda numa cozinha vigiada por câmaras de televisão. Foi ele que criou as duas últimas entradas. A primeira delas foi sapateira da costa, bavarois de sardinhas, espuma de mostarda Savora (curioso como esta velha mostarda está a ser recuperada por alguns chefs), pepinos e condimentos.
Para rematar: vieira salteada sobre uma fatia de pão, alcachofra, pinhão, cebolinho e salsifis (tubérculo) milanèse, polpa de funcho e yuzu (fruta cítrica asiática). Esta entrada e  a anterior foram maridadas com um vinho verde Soalheiro-Primeiras Vinhas 2010.
Por esta altura, é bom dizê-lo, ainda não íamos a meio do menu. Ortu foi o senhor que se seguiu. Primeiro prato de peixe, e talvez o meu preferido da noite, lavagante azul em caldo cremoso, raviole abaunilhado de abóbora Hokkaido (também conhecida por Potimarron, oriunda da Ásia) com limão confitado. Como vinho, um branco Guru 2010.
Ortu acertou igualmente no Pregado cozido ao vapor de algas, emulsão de ostras e bivalves com Caviar Sturia Vintage Affiné, e alho francês glaceado com cardamomo verde. Que regalo ver, e degustar, um dos nossos peixes preparado desta forma. Como vinho, um branco Niepoort Redoma Reserva 2010.
Regressa Farges e prova como um consommé pode ser mais do que um simples... consommé. O seu era de rabo de boi, claro, com pequenos legumes e fava tonka (no Brasil ela é conhecida como a semente da fruta amazónica Cumaru), mas sem dúvida que a tartine de cogumelos e lascas de Wagyu (carne de vaca japonesa), servida como acompanhamento, fez toda a diferença. Mantivemos o Redoma Reserva.
O prato de carne, propriamente dito, ficou a cargo de Neuner, que apostou as suas fichas na presa e entrecosto de porco preto, servido com batatas e cebolas confitadas, e molho de Sobrassada (enchido curado das Ilhas Baleares). O tinto era Ferreirinha Reserva Especial 20o3.
Dos fracos não reza a história; bravamente todos passaram ainda às sobremesas. A primeira, ideal para limpar o palato, foi um croustillant de citrinos e cremoso de clementinas com sorvete de toranja com Grand Marnier Bicentenaire. Os sabores acidulados foram bem conjugados com um espumante Quinta do Ameal Brut “Arinto” 2002. 
A derradeira etapa (porque me vou abster de mencionar que com o café, servido no final, vieram ainda umas mignardises) foi uma verdadeira apoteose de chocolate Valrhona em diferentes estados e formas: Tartelete cremosa de chocolate Nyangbo e sorvete de chocolate amargo, Fuseaux de chocolate Andoa recheados com uma mousse ligeira de Jivara Lactée. E tanto chocolate pedia mesmo um Madeira Blandy’s Malmsey Harvest 2004.

Quando se juntam quatro chefs, três deles com estrelas Michelin, e fazem o melhor que sabem, o resultado só pode ser, como foi o caso, uma noite memorável. Uma não, duas. Foram duas noites.  E, não tarda nada, está ai a nova carta de Inverno.

Estrada do Guincho, Cascais, tel. 214 870 491, todos os dias, almoços entre as 12.30 e as 15.30 e jantares entre 19.30 e as 22.30

24.11.11

as duas estrelas michelin de lisboa em 2012

[José Cordeiro, aqui na sua passagem como júri no programa "MasterChef" (foto de divulgação)]


Uma confirmação e uma surpresa em Lisboa.


A confirmação: o Chefe Cordeiro, que ganhou maior visibilidade junto do grande público desde que foi um dos jurados do concurso "MasterChef" (transmitido pela RTP1), conseguiu a primeira estrela Michelin para o restaurante Feitoria. Já antes, em 2005 e 2006, o chef havia conquistado uma quando estava à frente do restaurante Largo do Paço (Casa da Calçada, em Amarante), mas esta é a primeira desde que se mudou para Lisboa e assumiu os restaurantes do grupo hoteleiro Altis. 


A surpresa: o restaurante Tavares conseguiu manter a sua estrela mesmo após a saída do chef José Avillez — e consequente substituição por Aimé Barroyer —, as críticas menos boas dos últimos tempos e os boatos de insolvência. Barroyer, que alguns acusaram de estar a praticar uma cozinha demasiado "barroca", tem razões de sobra para estar satisfeito. 


[O restaurante Feitoria, agora com uma estrela Michelin, no hotel Altis Belém (foto de divulgação)]


Lisboa passa agora a ostentar duas estrelas Michelin. A boa nova foi divulgada há pouco, em Barcelona, onde decorreu o lançamento oficial do guia "Michelin España & Portugal 2012: Hoteles & Restaurantes" (já disponível online, aqui) e se ficou a saber quem levou a melhor (e a pior) em 2012.


[A capa do novo guia (foto de divulgação)]


Ainda sobre Lisboa, não foi desta que a Fortaleza do Guincho, em Cascais, ganhou a sua segunda estrela, nem que o chef Leonel Pereira, do Panorama, conseguiu a sua primeira.


É pena, mas não é o fim do mundo. 


Fora de Lisboa, o Ocean — sobre quem escrevi há poucos dias a propósito da presença de Hans Neuner no jantar Rota das Estrelas (ler aqui) — tem agora duas estrelas Michelin (restaurantes de excelência que merecem o desvio), juntando-se assim ao Vila Joya, também no Algarve. 


No Porto, Ricardo Costa ganhou a primeira estrela para o Yeatman (o chef tinha conseguido antes uma quando sucedeu a José Cordeiro na Casa da Calçada). A lamentar, apenas a perda da estrela do Amadeus, em Almancil (há rumores, não confirmados, de que terá encerrado). Mas isso são contas de um outro rosário que deixarei para o myword@ddressbook.

19.11.11

fora de portas: rota das estrelas na fortaleza do guincho, parte 1 | amuse-bouche

[Na 2ª edição da Rota das Estrelas na Fortaleza do Guincho, no sentido horário: Jean-Luc Ortu, Vincent Farges, Sébastien Broda e Hans Neuner (fotos de divulgação)]
Fica o aviso de navegação: isto não é um post; é um amuse-bouche, que é como quem diz um espicaça-palato, para o que se passou ontem e ainda se passará hoje no restaurante da Fortaleza do Guincho.


[Os canapés dos chefs, servidos com champanhe, à chegada (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

O post propriamente dito — com fotografias a "sério" — fica desde já prometido para daqui a uns dias; não muitos, só os suficientes para eu ter tempo de digerir, e assimilar, tudo o que degustei na minha última passagem por aquele que muitos já consideram — e não sou eu a dizê-lo, que não tenho pretensão a tanto — o melhor restaurante francês da Península Ibérica, estando por isso criada a expectativa para a sua segunda estrela Michelin (os resultados são anunciados no próximo dia 24 de Novembro, em Barcelona).

[A barriga de atum (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Mas chega de atalhos e vamos ao que realmente interessa e me trouxe aqui. Não sei se ainda vão a tempo de conseguir uma mesa em cima da hora, mas vale a pena tentar a sorte. Hoje é o último dos dois dias em que o chef executivo da Fortaleza, Vincent Farges, partilha, sob o pretexto de mais uma edição do festival Rota das Estrelas, a sua cozinha com os colegas e amigos Hans Heuner (o austríaco que conseguiu uma estrela Michelin para o restaurante Ocean, no Vila Vita, Algarve), Sébastien Broda (que conseguiu uma estrela Michelin para Le Park 45, em Cannes) e o consultor gastronómico francês Jean-Luc Ortu.


[Nos peixes, o lavagante, no topo, e o pregado com caviar, acima, (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Cada um deles assina dois pratos, ficando as duas sobremesas finais a cargo do novo chef pasteleiro da Fortaleza (Fabian Nguyen saiu e o seu sous-chef, Daniel, assumiu o posto). Ou seja, um total de dez pratos — entre entradas, peixe, carne e guloseimas — que justificam bem os €130 cobrados à cabeça, tanto mais porque do banquete fazem ainda parte canapés e champanhe servidos à entrada, degustação de caviar, de foie gras, de presunto e de chocolate Valrhona, além da maridagem de cada prato com um vinho.

[Nas carnes, um Consommé de Rabo de Boi (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

O jantar começa a ser servido às 20.30 e 20% reverte a favor da associação "Operação Nariz Vermelho". Do que estão à espera? Corram. 



[A pré-sobremesa Croustillant de Citrinos, no topo, ideal para limpar o palato antes da verdadeira orgia de chocolate Valrhona, acima (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Estrada do Guincho, Cascais, tel. 214 870 491, todos os dias, almoços entre as 12.30 e as 15.30 e jantares entre 19.30 e as 22.30
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...